Lucas Pinheiro Braathen escreveu nesta tarde uma página incomum na história dos Jogos de Inverno: sob uma nevasca intensa em Bormio, o atleta nascido em Oslo, filho de pai norueguês e mãe brasileira, venceu a prova do gigante de Milano Cortina e levou o ouro — a primeira medalha olímpica de inverno da história do Brasil.
A vitória de Braathen sobre os suíssos Marco Odermatt e Loïc Meillard, segundo e terceiro colocados respectivamente, tem dupla dimensão: é um triunfo esportivo em uma prova técnica e exigente, e também um acontecimento simbólico que discute as fronteiras do pertencimento nacional no esporte contemporâneo. Em sua declaração após a prova, Braathen sublinhou essa dimensão: “Um brasileiro campeão olímpico no esqui alpino! … a diferença é um superpoder: não importa o background, a cor da pele, de onde você vem. Todo sonho é seu para seguir”.
As condições meteorológicas — uma queda de neve persistente — tornaram a pista de Bormio ainda mais seletiva. Braathen administrou essa dificuldade com uma primeira passada sólida e eficácia técnica, e na segunda manteve a compostura enquanto buscava acelerar. O resultado final confirma seu domínio desta temporada e, simultaneamente, inaugura um novo capítulo para países tradicionalmente fora do eixo dos esportes de inverno.
Para a delegação italiana, a prova teve sabor amargo: Manfred De Aliprandini e Florian Kastlunger foram eliminados já na primeira série, enquanto Giovanni Franzoni foi o melhor entre os italianos, terminando apenas em 24º lugar. Alex Vinatzer, que vinha com boa posição (11º) após a primeira descida, sofreu uma queda na segunda e não completou, frustrando expectativas locais.
Como analista que observa o esporte em suas tramas sociais e históricas, vejo nesta vitória elementos que ultrapassam o pódio: a mobilidade transnacional dos atletas, a construção de identidades híbridas e a capacidade do esporte de reescrever narrativas nacionais. Um atleta com formação e vivência em países do Hemisfério Norte pode, legitimamente, tornar-se referência e símbolo para um país do Sul que até agora só assistia a estas página de longe. A medalha de Braathen não apaga as assimetrias de infraestrutura ou tradição esportiva, mas a torna visível como possibilidade.
Do ponto de vista técnico, o pódio confirma a supremacia suiça e nórdica em provas técnicas, mas com uma ruptura representativa: o nome brasileiro no topo desafia a geografia clássica do esqui. Os efeitos disso sobre políticas esportivas, investimento em formação e aderência de novos públicos ao esqui e aos esportes de neve no Brasil serão acompanhados atentamente nas próximas temporadas.
Em Bormio, portanto, assistimos a um gesto que é ao mesmo tempo esportivo e simbólico: Braathen vence o gigante, conquista o ouro e abre uma narrativa nova para atletas e torcedores brasileiros nos Jogos de Inverno. Resta agora medir o impacto dessa conquista — nas pistas, nas casas e nas administrações esportivas — e entender se ela representará um ponto de inflexão ou um momento singular e inspirador na história do esporte latino-americano.
Reportagem: Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Espresso Italia






















