Paolo Bonolis, presença recorrente no palco e na cena pública italiana, ofereceu uma lembrança curiosa e reveladora durante a noite teatral de “Viva el futbol”, em Roma. Convocado pelos amigos e ex-jogadores Adani, Cassano e Ventola, o apresentador resgatou um episódio de violência ocasional que ocorreu em uma partida do coração nos anos 1980, envolvendo o cantor Gianni Morandi.
O relato, contado com a calma e o distanciamento de quem repensa um momento do passado, ganhou subtexto por ocorrer justamente na semana do Festival de Sanremo — evento que ambos já conduziram: Morandi em 2005 e 2009; Bonolis em 2011 e 2012, e novamente ao lado de Amadeus em 2023. Essa sobreposição de trajetórias culturais ajuda a explicar por que a memória ganha tom público: não se trata apenas de uma rixa, mas de duas figuras que cruzaram caminhos do entretenimento e da paixão futebolística.
Segundo Bonolis, pressionado pelo ator Corrado Tedeschi — que estava em campo naquele dia —, a cena transpôs o tom festivo da beneficência. “Estávamos em uma partida do coração, para beneficência, e jogávamos contra a Nazionale Cantanti”, recordou. “Gianni entrou a pés juntos na minha perna; eu, com cerca de 24 anos, saltei para evitar. Disse a ele: ‘Maestro, ma é uma partita di beneficenza: così mi spacca la gamba’. Ele respondeu com um buffetinho no rosto: ‘Ma gioca…’. Eu perdi a cabeça e dei um soco no queixo; ele caiu e começou uma briga bonita…”.
É importante notar o enquadramento social deste tipo de evento: partidas de artistas e ex-jogadores são exibidas como gestos solidários, mas também são espaços onde masculinidades, performatividade e rivalidades históricas podem emergir com violência. Esse contraste — entre a intenção beneficente e a corporalidade do jogo — é parte do que torna o episódio bem mais do que uma anedota.
Depois do incidente, os laços se recomporam. Morandi e Bonolis continuaram a cruzar-se profissionalmente, em programas e nos palcos que marcam a memória coletiva italiana. O apresentador, conhecido por seu vínculo com a tifoseria interista, aproveitou a ocasião para comentar a atualidade do clube: “Vejo a Inter mais divertida agora, busca mais verticalidade; Chivu transmite serenidade aos jogadores”.
Sobre o episódio envolvendo Alessandro Bastoni, Bonolis foi pragmático: “Ha simulato, ma il calcio è anche un gioco di inganni” — reconhecendo que a simulação faz parte do jogo. Porém, chamou atenção para outro ponto: o silêncio do VAR. “O Var silente? Esse é um problema; eu compreendo os torcedores da Juventus”.
Como analista atento às tramas que cruzam esporte e cultura, vejo neste relato mais do que um momento de fúria: é um exemplo de como o futebol — mesmo em chaves simbólicas, como partidas beneficentes — reúne atores sociais que carregam histórias, identidades regionais e modos de representar masculinidade e fama. A rixa entre Bonolis e Morandi permanece, afinal, uma pequena fábula sobre o que o jogo revela quando as cortinas se abrem.
Otávio Marchesini — Repórter de Esportes, Espresso Italia






















