Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Em Livigno, durante os Jogos de Milano Cortina 2026, o veterano austríaco Benjamin Karl conquistou o ouro no slalom paralelo gigante de snowboard e ofereceu ao público uma celebração que rapidamente se transformou em imagem símbolo dos Jogos. Aos 40 anos, Karl festejou a sua quarta medalha olímpica de forma exuberante: arrancou a camisola, contraiu os músculos e lançou-se à neve — uma atitude que muitos compararam à célebre esultanza “à Balotelli“.
Mais do que um gesto de exuberância individual, a cena traduz um momento de intensidade emocional e de ruptura com a compostura que frequentemente se exige aos atletas nas grandes competições. O ato de despir a camiseta, em meio ao frio de Livigno, é ritualístico: mistura alívio, afirmação identitária e espetáculo. Karl, figura longa no circuito do snowboard, não apenas adicionou uma medalha ao seu palmarés; reafirmou, simbolicamente, a pertinência da experiência e da persistência em um esporte marcado por janelas de juventude tardias.
O episódio adquire ainda outra camada quando se observa o contexto esportivo italiano: o local não foi neutro para a narrativa do dia. O italiano Maurizio Bormolini foi eliminado justamente por Karl nas oitavas de final, por uma diferença mínima de apenas três centésimos. Essa margem, traiçoeira e cruel, resume a natureza do esporte: decisões decididas em frações de segundo, vidas desdobradas em décimos que determinam trajetórias. Para Bormolini, competindo em solo nacional, a eliminação foi ao mesmo tempo derrota técnica e fragilidade simbólica, um lembrete de como a glória olímpica costuma andar de mãos dadas com o detalhe.
Enquanto as lentes captavam o gesto de Karl — um urro, o corpo contraído e o mergulho na neve — é possível ler naquele momento ecos de outras esultanzas famosas, mas também sua singularidade. Diferente do futebol, onde a remoção da camisa já foi múltiplo gesto de provocação ou de poesia pessoal, no esqui e no snowboard o ato é menos frequente, e portanto mais marcante. A escolha de Karl de se expor, fisicamente e emotivamente, questiona o limite entre a celebração autêntica e o espetáculo arquitetado para as câmeras.
Do ponto de vista histórico e cultural, a imagem é fértil. Retrata um esporte que se profissionalizou, mas que conserva espaço para gestos que sublinham a condição humana: cansaço, alívio, triunfo tardio. Para a Áustria, é mais uma confirmação do seu status nas modalidades de neve; para a Itália, um momento de fratura e reflexão sobre formação e competitividade na pista. O ouro de Karl se lê, assim, como evento esportivo e como metáfora — do tempo, das margens mínimas que separam vitória e derrota, e da teatralidade que hoje caracteriza os grandes palcos esportivos.
Em suma, a esultanza de Benjamin Karl em Milano Cortina 2026 é mais do que um gesto: é narrativa. Uma narrativa que se inscreve tanto no registro das medalhas quanto na memória visual dos Jogos, deixando para além do resultado técnico uma imagem que ecoará nas discussões sobre identidade, espetáculo e o papel do atleta na contemporaneidade.





















