Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Em Baselga di Piné, no alto do planalto da Alta Valsugana, a confluência do frio extremo e da presença massiva de forças de segurança para as competições transformou uma questão técnica em problema público: o abastecimento hídrico local entrou em regime de emergência. As cisterne passaram a ser o instrumento central para garantir água às cinco mil pessoas que vivem na vila — e o município já não exclui medidas mais duras, como o corte temporário durante a noite.
O quadro é simples na sua combinação de natureza e política do grande evento: com as nascente de montanha congeladas por uma onda de frio que mantém temperaturas diárias abaixo de zero, a liberação de água reduziu-se num momento em que a demanda aumentou. Parte desse acréscimo provém dos hotéis do planalto, agora praticamente lotados para acomodar membros da polícia e dos Carabinieri destacados para a segurança das provas em Tesero e Predazzo durante as Olimpíadas. “Normalmente temos reservas de sobra, mas neste fim de inverno as nascentes em altitude entregaram muito menos água. Se a situação não melhorar, poderemos ter que fechar a água em certos horários”, afirmou o prefeito Alessandro Santuari.
Desde a semana passada, a prefeitura adotou uma deliberação que restringe usos não essenciais da água potável. Ficam proibidos, enquanto vigorar o ato administrativo, usos como lavar pátios, calçadas, ruas e superfícies externas; limpar automóveis, motocicletas e similares; regar jardins; encher piscinas privadas; e manter fontes ornamentais ou bacias privadas em funcionamento. “São permitidos exclusivamente os usos higieno-sanitários, alimentares e domésticos estritamente indispensáveis”, diz o texto do município.
Para reduzir o impacto sobre os moradores, as entregas por caminhões e cisterne dos corpos de bombeiros — unidades permanentes e voluntárias de localidades vizinhas como Volano, Brentonico, Isera, Avio, Mori e Besenello — passaram a abastecer Baselga di Piné com cerca de 200 metros cúbicos por dia, segundo informações locais. Ainda assim, o volume é contingente e dependente de logística e da continuidade do frio, que impede a rápida recuperação das fontes.
O episódio oferece uma leitura mais ampla, que ultrapassa a mera emergência operacional. Projetos esportivos de grande escala, como as Olimpíadas, mobilizam recursos e deslocamentos que reapresentam desigualdades e fragilidades infraestruturais de territórios pequenos. A presença dos poliziotti e carabinieri é legítima e necessária para a segurança das provas; mas impõe uma pressão sobre serviços públicos locais — água, resíduos, transporte — que nem sempre foi plenamente antecipada nas etapas de planejamento.
Enquanto isso, a prefeitura tenta equilibrar duas demandas conflitantes: garantir o direito ao abastecimento dos moradores e cumprir as exigências logísticas de um evento internacional. O chamado à população é claro e prático: economizar, destinar a água apenas para usos essenciais e respeitar as proibições estabelecidas. Medidas adicionais, inclusive cortes temporários, ficam como última alternativa caso a recuperação das nascentes e a redução da demanda não ocorram nas próximas semanas.
Do ponto de vista histórico e cultural, Baselga di Piné é um exemplo de como um território de montanha, acostumado a administrar recursos naturais em equilíbrio com a atividade humana, pode ser surpreendido por combinações externas — clima extremo e eventos globais — que exigem respostas ágeis e coordenadas. A solução imediata passa pelas cisterne e pelo comportamento coletivo; a lição mais duradoura é sobre a necessidade de planejamento integrado entre organizadores de eventos, forças de segurança e administrações locais.
As autoridades municipais reiteraram que acompanharão a evolução diária e atualizarão a população sobre possíveis novos provvedimentos. Até lá, a recomendação é pragmática: usar água apenas quando estritamente necessário.






















