Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — Em uma noite em que o esporte se fez simbólico além do resultado, Franco Baresi percorreu os poucos metros do gramado de San Siro carregando a tocha olímpica para Milano Cortina 2026. A cena, acompanhada pela voz de Andrea Bocelli e pelo tema que se tornou hino dos momentos olímpicos, levou o estádio a um silêncio reverente e a imprensa a uma reflexão sobre o papel público dos atletas-ícone.
O antigo capitão do Milan definiu o episódio como “uma das emoções mais belas da minha vida”. Em tom contido, Baresi evocou o peso simbólico do gesto: transmitir uma mensagem de paz e harmonia entre os povos, valores que, segundo ele, são especialmente urgentes no presente. Foram poucos passos, mas suficientes para que o ex-lateral percebesse a dimensão do que representava: “Naqueles metros, com os olhos do mundo voltados, percebi que era um porta-voz de valores como a lealdade na competição e a harmonia”, disse.
A participação veio algumas semanas depois de um período mais delicado na vida do ex-jogador. Em 3 de agosto passado, Franco Baresi anunciou que precisaria de tempo para recuperar a forma, numa referência ao procedimento para a retirada de uma nodulação pulmonar. A natural reserva de sua personalidade — e o caráter íntimo do tema — fizeram com que ele se afastasse temporariamente dos holofotes.
Sobre o convite para ser tedoforo, Baresi contou que foi contactado pelo presidente do CONI, Luciano Buonfiglio, cerca de um mês e meio antes. “Na hora fiquei meio surpreso e respondi: ‘Vocês têm certeza? Não estou exatamente no meu melhor momento’”, recordou. Ainda assim, avaliou ser uma oportunidade única representar o país num rito olímpico, e a ideia de fazê-lo em Milão — cidade que consagrou sua lenda — acrescentou uma camada de significado emocional.
O quadro ficou ainda mais denso pela presença de Beppe Bergomi ao lado de Baresi. O encontro, longe de ser encenação programada de longo curso, foi comunicado a ele apenas uma semana antes: Baresi não sabia qual trecho percorreria nem que dividiria o momento com o antigo adversário de inúmeros dérbis. “Beppe nunca será apenas um rival; é um grande amigo”, disse, num gesto que ilustra como o esporte constrói e transforma identidades ao longo do tempo.
Para quem pensa o esporte como cultura, a imagem dos dois — rivais em campo, confrades nas celebrações cívicas — funciona como memória coletiva de uma cidade e de uma geração. San Siro, mais que cenário, aparece como palco de ritos de passagem: ali onde Baresi construiu sua história, tornou-se também o lugar para reafirmar valores que transcendem o próprio futebol.
O episódio traz ainda um eco histórico. Baresi lembrou que não era a primeira vez que carregava uma tocha: em Atlanta, durante as Olimpíadas de 1996, percorreu um quilômetro em Park Avenue, numa cerimônia eternizada pela ascensão do braseiro por Cassius Clay (Muhammad Ali). A comparação é explícita: cada edição olímpica tem seu valor simbólico; a de Milano Cortina 2026 carrega agora o registro de um retorno contido, mas carregado de sentido.
Mais que a nota pessoal sobre a saúde — “o pior já passou”, afirmou —, o que se destacará desse momento é a leitura coletiva que dele se fará. A tocha, nas mãos de uma lenda do Milan, lembrou que estádios são também lugares de memória e que atletas podem, em gestos breves, reafirmar narrativas maiores sobre comunidade, recuperação e identidade.
Para a cidade e para os fãs, a imagem de Baresi caminhando sob os acordes de Bocelli ficará como um símbolo: não apenas do início dos Jogos, mas da capacidade do esporte de conjugar fragilidade e resiliência numa mesma cena.






















