Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
As Olimpíadas sempre foram palco de gesto esportivo e espetáculo, mas também de enunciados políticos e simbólicos. Em Cortina, no ciclo “Una montagna di Libri” organizado por Francesco Chiamulera, duas histórias recentes ajudaram a lembrar que a presença nos Jogos pode ser, para muitos, uma forma de reivindicar direitos básicos. As jornadas de Mahdia Sharifi e Hadi Tiranvalipur — ambos integrados à equipe olímpica de refugiados criada pelo Comitê Olímpico Internacional — ilustram, com sobriedade, o que significa competir em nome da liberdade.
Mahdia Sharifi, 22 anos, deixou o Afeganistão em 2021. No seu país, fazia parte da seleção feminina de Taekwondo, mas as normas impostas pelos talibãs a impediriam de praticar esportes, estudar, trabalhar ou simplesmente sair de casa sem acompanhamento. A escolha por buscar refúgio na Itália devolveu a ela o direito de treinar e competir. Em italiano fluente, Mahdia descreveu a violência do regime como instrumento de silenciamento e a pobreza como mecanismo de submissão da população. Para ela, o tatame é maior que uma arena: é um espaço de afirmação individual e coletiva.
Hadi Tiranvalipur traz outra intricada combinação de esporte e dissidência. Ex-atleta olímpico do Taekwondo pelo Irã e ex-jornalista esportivo, Hadi fugiu em meio ao movimento “Donna Vita Libertà” (Mulher, Vida, Liberdade), motivado pelo desejo de solidariedade às mulheres que protestavam por direitos básicos. A travessia até a Itália passou pela dura rotina de dormir em bosques e enfrentar incertezas. Hadi lançou um apelo emotivo aos jovens iranianos — lembrando que, segundo denúncias repetidas, mais de 40 mil jovens perderam a vida nas repressões — e sublinhou que a presença de atletas refugiados nas Olimpíadas é também um gesto de visibilidade e apoio internacional.
Esses depoimentos encaixam-se num quadro maior: as decisões e as opções dos atletas nos Jogos frequentemente reverberam para além dos resultados. Casos recentes — como a posição de Heraskevych sobre o capacete comemorativo em memória de atletas mortos na guerra, ou escolhas de atletas paralímpicos russos — mostram que o esporte moderno é inseparável de contextos políticos e sociais. São sinais de que a arena olímpica continua a ser palco de disputa por memórias, identidades e direitos.
Ao ouvir Mahdia e Hadi, percebe-se que a equipe de refugiados não é apenas uma forma técnica de inclusão, mas um testemunho. Representa mais de 100 milhões de pessoas deslocadas no mundo e traduz, em rostos e trajetórias, o modo como o esporte pode reafirmar dignidade. Não se trata de romantizar o sofrimento, mas de reconhecer que as vitórias e participações nesses Jogos dizem respeito a políticas, a histórias pessoais e a futuros possíveis.
Como analista, observo que a presença desses atletas nos lembra duas lições: primeiro, que as competições esportivas mantêm um vínculo orgânico com o tecido social; segundo, que a proteção do direito ao esporte é também uma forma de proteção dos direitos humanos. Em um tempo em que as fronteiras políticas se estreitam, o tatame e a pista continuam a oferecer trajetórias de emancipação.






















