Por Otávio Marchesini – Espresso Italia
Quando o cronômetro do Gewiss Stadium já lambia os acréscimos, a Atalanta consumou uma reviravolta tão abrupta quanto simbólica: nos 98 minutos, de pênalti convertido por Samardzic, a equipe bergamasca derrubou o Borussia Dortmund e carimbou a vaga nas oitavas da Champions League. Foi uma noite que diz muito mais do que o placar: fala de identidade, resistência coletiva e da capacidade do futebol italiano de recuperar fôlego nas horas decisivas.
O roteiro começou como se previa: plano alemão de abrir vantagem cedo e administrá‑la. Mas a Atalanta seguiu seu manual — marcar rápido e buscar o empate antes do intervalo — e encontrou na precisão e na paciência os motores da remontada. Aos primeiros minutos, Scamacca aproveitou assistência trabalhada por Zalewski e Bernasconi para abrir o marcador e devolver a esperança à torcida.
Antes do intervalo, Zappacosta apareceu ocupando o espaço nas costas dos laterais adversários e, com um chute do limite, viu a bola desviar em Bensebaini e morrer no fundo das redes: 2 a 0 que igualavam a eliminatória e inflamavam os 23 mil presentes na Nord, que celebravam com uma parede amarela de memória e orgulho.
Na segunda etapa, a sequência manteve a lógica da superação. Um tiro de Beier tocou a trave, e ao 12′ De Roon serviu com perfeição para Pasalic, que, de cabeça, colocou a Atalanta em vantagem no agregado. Parecia o momento de fechar as portas, mas o futebol raramente concede folga. Adeyemi respondeu com um gol de placa — um verdadeiro “eurogol” — e reabriu a eliminatória, forçando nervos e suor até o último lance.
O símbolo da entrega atalantina foi a cena do jovem Krstovic, com a cabeça sangrando após um choque, mas ainda assim presente na última jogada que originou a queda do adversário na área. A sequência final teve controvérsia e fervor: após disputa intensa, pênalti assinalado nos acréscimos e a responsabilidade nas pernas de Samardzic, que não tremeu.
O técnico Gian Piero Palladino definiu a partida como “uma remontada que ficará na história do futebol italiano”; emocionado, colocou a mão no peito e disse tratar‑se da melhor partida desde que assumiu o comando. O presidente Percassi, que havia boicotado um almoço da UEFA por motivos ligados a Inacio, resumiu num comentário seco: “Há uma justiça divina”.
Mais do que um resultado, a vitória da Atalanta é um sinal político e cultural: um clube de provincialidade forte, com formação, identidade tática e uma torcida que voltou a ser protagonista em nível europeu. A equipe não só superou o déficit de 0-2 trazido da Alemanha, como demonstrou coesão em momentos de risco — algo que, no contexto mais amplo do futebol europeu, projeta a Atalanta como adversário de respeito, seja contra Bayern ou Arsenal, possíveis confrontos futuros.
No fim, a imagem fica: 23 mil pessoas empurrando, um clube que se inventa de novo e jogadores jovens — e sangrando — dispostos a simbolizar uma cidade. O placar final, com Samardzic calando o estádio aos 98′, é apenas a ponta de um relato mais amplo sobre memória, disputa e renascimento.
Partida disputada em 25 de fevereiro de 2026. Público aproximado: 23.000 pessoas.





















