Por Otávio Marchesini — A noite europeia trouxe tanto celebração quanto inquietação: a Atalanta de Palladino garantiu vaga nas oitavas com uma exibição avassaladora, enquanto a Juventus saiu da Champions com a cabeça erguida e o gosto amargo de uma remontada incompleta contra o Galatasaray.
A magnífica Atalanta, que preservou muitos dos genes táticos da era Gasperini, foi a responsável por suavizar o quadro continental do nosso futebol. Foram quase cem minutos de intensidade: um futebol rico, pressionante e pautado pela convicção de poder dar a volta por cima. A Dea encurralou o Borussia Dortmund desde a primeira ação, abriu o placar aos cinco minutos e chegou a igualar o 2-0 do jogo de ida ainda antes do intervalo — a festa, no entanto, só veio no 98º minuto, como acontece nas narrativas que misturam sofrimento e alegria.
Palladino parece crescer em palcos grandes: já no seu começo na Série A, com o Monza, havia surpreendido a Juventus; e mais tarde, em Florença, montou equipes competitivas contra gigantes regionais. Graças à sua mão e à convicção dos seus jogadores, evitamos a humilhação de ficar sem representação entre as dezesseis melhores da Europa. Podia ter sido uma quarta-feira de rostos heróicos.
Por sua vez, a Juve disputou a partida com a mesma garra desde o apito inicial até o fim, marcando três gols e levando o duelo contra o Galatasaray aos minutos extras mesmo com os adversários reduzidos a dez desde o início do segundo tempo. A eliminação, para muitos, foi injusta: dolorosa pela entrega dos bianconeri e pelo modo como conduziram a recuperação, chegando a um passo do quarto gol.
Como em boa parte desta temporada errática, o desenlace passou pelos atacantes. O gol de Scamacca, com a camisa da Atalanta, acendeu o estopim; e, já nos acréscimos, um nome inesperado — Osimhen — apareceu para salvar o Galatasaray no final do primeiro tempo suplementar, numa das primeiras jogadas verdadeiramente aproveitáveis. Já David, por outro lado, não entrou na narrativa.
Spalletti pode colher um consolo: na noite do Stadium, a Juventus reencontrou traços de sua identidade. Passada a inevitável amargura, a equipe terá, espera-se, clareza sobre o caminho que leva a conquistar a Champions por via do Campeonato — um processo que exige regularidade e fundação sólida.
Os playoffs europeus têm se mostrado uma espécie de Triângulo das Bermudas para nossas equipes: no ano anterior foram fatais para três clubes; nesta edição, apenas a Atalanta emergiu ilesa. Restam à Juventus os remorsos pelo segundo tempo desperdiçado em Istambul: havia meios para avançar e, no retorno, a equipe jogou com coração e alma, mas não foi suficientemente abençoada pela sorte.
O resultado coletivo acende um alerta que ultrapassa os clubes: preocupa Gattuso, que em um mês estará à frente da Seleção para os decisivos playoffs rumo à Copa do Mundo. Impõe-se uma reflexão ampla sobre o declínio de intensidade do nosso movimento. Falta ao futebol italiano a tensão competitiva e a profundidade coletiva que o jogo europeu contemporâneo exige — e essa lacuna precisa ser encarada com urgência, tanto nas estruturas de formação quanto na gestão dos calendários e cargas físicas.
Sem dramatizar, mas sem minimizar: a noite foi uma síntese. Há motivos para orgulho e, simultaneamente, para revisão. O esporte continua sendo, como sempre, um espelho cultural — e essa imagem, após as luzes da Champions, convida a uma leitura crítica e propositiva.






















