Atalanta e sua noite de revalidação. Após a virada por 4-1 sobre o Borussia Dortmund, jogadores, diretoria e torcida dividiram uma sensação rara: não apenas a alegria pela classificação, mas a confirmação de um projeto, de uma identidade coletiva que resiste a turbulências. A partida de volta dos playoffs da Champions funcionou como espelho: a equipe que se apresentou no gramado sabia exatamente quem era.
Ao microfone da Sky Sport, o atacante Gianluca Scamacca sintetizou essa percepção: “Sappiamo quanto valiamo, Palladino ci ha permesso di ritrovare noi stessi”. O comentário traduz a leitura de que a vitória não foi um acidente emocional, mas resultado de uma convicção reencontrada. Scamacca destacou a vontade do grupo desde o início: “Partimos fortes porque sentíamos que podíamos virar. Acreditamos até o fim, fizemos uma grande remontada também para nos redimirmos do jogo de ida. Jogando o futebol que conhecemos, podemos alcançar grandes satisfações.”
O atacante atribuiu ao treinador a mudança de dinâmica: “A chegada de Palladino nos transformou, deu um impulso importante e nos fez reencontrar nós mesmos. O apoio da torcida foi fundamental; eles são nosso décimo segundo jogador, sempre presentes, em casa e fora.” É uma leitura que vai além do tático: reconhece a força simbólica da torcida bergamasca e a continuidade de uma cultura de clube construída ao longo de anos.
Na visão da diretoria, a vitória também tem contornos históricos. Luca Percassi, administrador delegado do clube, classificou a noite como “um orgulho” e comparou o feito a outra memória coletiva, evocando Dublin: “Uma façanha que coloco pouco abaixo do que vivemos em Dublino”. Percassi elogiou a partida perfeita — desde o trabalho do treinador até a entrega dos jogadores e a reação de uma cidade inteira. Ainda acrescentou: “Palladino é um predestinado. Apesar dos poucos dias, conseguiu tocar as cordas certas”.
O dirigente não deixou de lado as tensões extracampo. Comentou sobre a recusa em participar do almoço oficial com o Borussia Dortmund, afirmando que se sentiu desrespeitado: “Ci ha mancato di rispetto”. Em relação a Samuele Inacio, Percassi falou de uma espécie de “giustizia divina” no resultado, retomando um episódio que vinha alimentando reclamações nas semanas anteriores.
Do lado do elenco, De Roon resumiu com clareza: “L’Atalanta è questa”. A frase traduz a noção de que a equipe reagiu conforme sua matriz: intensidade, pressão coletiva e crença tática. Mais que um resultado, a exibição serve como reafirmação de um modelo esportivo que virou patrimônio regional — estádios e jogadores que representam laços de identidade, trabalho de formação e, sobretudo, resistência em momentos de crise.
Percassi já projetou o próximo desafio: a rota agora aponta para adversários de elite — Arsenal ou Bayern de Munique foram citados como possíveis rivais. E, ao mesmo tempo, deixou uma mensagem clara: apesar do orgulho, será necessário trabalhar com humildade. “Muitos nos deram apoio nos meses difíceis. Devemos continuar a trabalhar com responsabilidade, mas hoje toda Bergamo pode viver uma noite especial”, concluiu o dirigente, emocionado.
Esta vitória de Atalanta sobre o Borussia Dortmund não é apenas um dado estatístico. É um capítulo que reconta o papel do clube como expressão coletiva de uma cidade, a confirmação de uma filosofia de jogo e a lembrança de que, no futebol contemporâneo, sucessos são sempre construídos em camadas — táticas, culturais e humanas.






















