Atalanta e Bergamo ofereceram ao futebol europeu uma lição sobre identidade, projeto e resistência. Na noite de 25 de fevereiro de 2026, o Gewiss Stadium foi mais do que palco: tornou-se cenário de uma virada que valeu vaga nos oitavos da Champions e a condição de única representante da Serie A entre as grandes potências do continente.
Não há jeito elegante de começar esta narrativa além de reconhecer o que foi evidente já nas tribunas: o público foi heróico, protagonista e parte integrante do resultado. As coreografias iniciais, o apoio ininterrupto ao longo dos 90 minutos e a celebração final transformaram a arena em uma comunhão. Bergamo não foi apenas a moldura; foi força ativa que ajudou a escrever esta página.
Mas a história da partida exige distanciamento crítico, porque o êxito não é um acaso nem um clichê de entusiasmo local. Trata-se de um produto de um projeto de longo prazo, cujas vigas mestras resistiram à tentação de confundir ciclo com fim. A trajetória recente do clube não acabou com a saída de Gasperini: o trabalho permanece, orientado por uma propriedade que fala de Bergamo como coletivo e por um ecossistema no qual papéis e responsabilidades são calibrados de modo a permitir conquistas desta magnitude.
Em campo, a partida foi uma sucessão de intensidade e drama. O adversário, o poderoso Borussia Dortmund, entrou na partida com prestígio e futebol alto — e por um trecho da partida isso se traduziu em vantagem. A reação da Atalanta, porém, foi de uma equipe que compreende seu projeto tático e emocional: marcou por três vezes em momentos cruciais (5′ e 45′ do primeiro tempo; e aos 12′ da etapa final, conforme o desenrolar do jogo), imprimindo um ritmo superior e merecendo, no conjunto, a reviravolta.
O Borussia ainda teve fôlego para empatar depois de um golpe de azar — um poste — e por instantes a eliminatória pareceu pender para a prorrogação. Foi então que emergiram sinais do que faz do futebol um fenômeno social: jogadores que não figuravam nos boletins de favoritos — Krstovic, Pašalić e Samardžić — assumiram protagonismo e, com frieza e coragem, fecharam a conta. O lance que originou o pênalti — Krstovic caído após receber um golpe na cabeça — resumiu a dureza física daquela noite, seguida pela aplicação clínica na cobrança final de Samardžić.
Mais do que um triunfo pontual, o 4 a 1 representa o alcance de uma identidade. É justo afirmar que rivais e analistas verão nesta vitória um conjunto de fatores virtuosos: coerência tática, gestão de elenco, ligação com a cidade e um modelo de sustentação que vai além do carisma de um treinador ou do brilho de um craque. Bergamo conquistou visibilidade e prestígio, mas sobretudo reafirmou que o esporte, quando articulado com responsabilidade institucional e pertença cultural, pode gerar resultados que reverberam para além do estádio.
Ao torcedor atento, resta agora desfrutar de uma conquista que mistura suor, inevitáveis lágrimas e a sensação de que se tratou de algo maior do que três pontos ou uma fase da competição: foi um testemunho sobre como o futebol italiano pode resistir e reinventar-se na cena europeia. Para a cidade, para os jogadores e para quem acompanha o projeto da Atalanta, essa é uma noite que será lembrada como uma peça central na narrativa contemporânea do clube.
Assinado: Otávio Marchesini, repórter e analista esportivo da Espresso Italia — observador do esporte como fenômeno social, histórico e identitário.






















