Por Otávio Marchesini — Em uma carreira que atravessa décadas e reconfigura recordes, Arianna Fontana permanece um enigma público: atleta de elite, símbolo nacional e mulher com rotinas cotidianas que revelam mais sobre a sua identidade do que uma manchete olímpica. Depois da 14ª medalha, a campeã parte em busca do último título que falta, nos temidos 1500 metros, prova em que é campeã europeia e onde pretende encerrar uma leitura esportiva tão longa quanto densa.
Nas trilhas dessa biografia pública há detalhes que humanizam a figura de quem já foi apelidada de Mrs. Olimpíade. Em Berbenno, sua cidade de raízes, circula a fama de uma cheesecake aromatizada ao limão — receita aprendida com parentes nos Estados Unidos — e de massas feitas à mão: pizzoccheri e tagliatelle que mostram como técnica e tradição se encontram fora do gelo. Para o look olímpico, que inclui a raspagem das laterais do cabelo, ela confia apenas no cabeleireiro de Morbegno. São gestos pequenos que, somados, constroem uma narrativa de pertença e disciplina.
Há também vícios e fetiches: o amor pela cor verde, o cão Kira, agora com dez anos, e uma coleção de sapatos de salto — alguns com saltos de doze centímetros — que, segundo se diz, poderão ser úteis no palco de Sanremo, onde a atleta e os medalhistas da olimpíada serão convidados na próxima semana. A imagem desses saltos contrasta com a imagem mais conhecida de short track, esporte que exige precisão, austeridade e uma postura quase monástica entre as lâminas.
No pódio e fora dele, a dimensão política e simbólica da sua carreira é inegável. Ao lado de colegas como Brignone e Lollobrigida, Fontana encarna um momento de supremacia do esporte italiano — uma supremacia que mereceu até um gesto público da primeira-ministra Giorgia Meloni: a capitã prometeu a Meloni uma das suas caracterísitcas tutine azuis, o traje que a transforma, para muitos, numa super-heroína sem capa.
Apesar da coleção de medalhas — três ouros, seis pratas e cinco bronzes, totalizando 14 medalhas olímpicas, recorde absoluto entre atletas de Verão e Inverno — há momentos em que o competitivo e o humano se encontram em fricção. Após o quarto lugar nos 1000 metros, a atleta se deixou emocionar em público: entre a plateia no Fórum estavam parentes do marido Anthony, vindos da Flórida; o abraço do irmão Alessandro foi um gesto de normalidade num mundo que exige exceção.
Fisicamente, o número do capacete — o dez, o mesmo número de Jannik Sinner quando ajeita o boné — marca a fronteira entre a rotina pessoal e a exigência da competição. Com 1,64 m, Fontana parece maior sobre as lâminas; seu sorriso, porém, permanece confinado ao vestiário: o short track pede concentração absoluta. Não raro ela explode contra o equipamento — já chegou a xingar os patins — e não hesita em nomear adversárias com desdém competitivo; a rival que surgiu das retaguardas numa noite olímpica foi lembrada com a expressão italiana “la maledetta coreana“, frase que entrou no léxico de uma carreira feita também de confrontos verbais.
Mais do que crônicas de vitórias, esses episódios explicam por que Arianna Fontana foi, e continua sendo, muito mais que uma atleta de resultados: é um ponto de convergência entre tradição regional, exposição nacional e expectativa coletiva. A busca pelos 1500 metros não é apenas a caçada por mais um ouro; é a tentativa de fechar um ciclo narrativo que liga a roda das idades aos rostos nas arquibancadas, lembrando-nos que o esporte, ao fim, é a história que contamos sobre nós mesmos.






















