Depois de uma classificação brilhante para a final, Arianna Fontana terminou em quarto lugar nos 1000 metros do short track, atrás de Velzeboer, Sarault e Kim. A italiana, que chegava com a ambição de confirmar o posto de atleta mais vitoriosa da história olímpica italiana, saiu da pista visivelmente frustrada e denunciou um contato que, segundo ela, comprometeu suas chances: “Sorrido para não chorar, sono molto arrabbiata: la cinese mi ha sportellato alla grande”.
A prova dos 1000 metros foi uma demonstração de resistência tática e de equilíbrios fragilizados nas curvas. Em uma distância em que a gestão de energia e a leitura do momento são cruciais, a veterana tentou impor sua experiência, mantendo-se no pelotão da frente ao lado de Sarault e da holandesa que viria a vencer. Mas o ataque de Xandra Velzeboer reordenou as forças: as mudanças de ritmo e a disputa pelas linhas internas abriram espaço para a sul-coreana Kim, que aproveitou o momento e venceu o sprint decisivo por uma das medalhas. Com isso, Velzeboer levou o ouro, Sarault a prata e Kim o bronze; Fontana acabou com a indesejada quarta colocação.
Até ali, o plano havia funcionado. A passagem aos quartos veio com autoridade: Fontana controlou a coreana Choi na sua bateria, e a Itália viu Elisa Confortola impor-se com técnica ao colocar a lâmina do skate à frente de Michelle Velzeboer — irmã da favorita Xandra. A presença de Confortola e a capacidade de jogo coletivo que as italianas tentaram montar foram elementos positivos, ainda que tenham levado as duas a se encontrarem na mesma semifinal.
Na semifinal, Confortola adotou função de contenção, protegendo a capitã de ataques repetidos e assegurando classificação para a final B. Fontana, por sua vez, escolheu a prudência tática: assumiu a segunda posição atrás da incisiva canadense Sarault, poupando forças para a decisiva. Do outro lado, Xandra Velzeboer dominou sua semifinal, confirmando o favoritismo construído desde os 500 metros.
Além da narrativa feminina, a manhã/noite de pista teve capítulos dramáticos entre os homens. Pietro Sighel escapou por pouco de mais uma queda nos 500 metros, e o foto finish favoreceu o atleta cazaque Azhgaliyev. Passaram também Previtali e Nadalini. A qualificação da staffetta masculina foi cinematográfica: Sighel, Nadalini, Spechenhauser e Cassinelli foram obrigados a uma remontada depois de uma queda que parecia ter encerrado suas esperanças. No último giro, Sighel empurrou além do limite, superou um chinês e assegurou vaga na final de sexta-feira, atrás do Canadá — mais 5.000 metros para testar fôlego, técnica e nervos.
O episódio do contato com a chinesa Gong, mencionado por Fontana, lança luz sobre uma questão recorrente do esporte: o limite entre o choque competitivo e a irregularidade sancionável. O julgamento dos árbitros é parte do espetáculo, e a diferença entre uma medalha e o “ferro” (a chamada medalha de madeira) passa por décimos e por interpretações. Para uma atleta do calibre de Arianna Fontana, acostumada a tocar o pódio em múltiplas edições olímpicas, a posição de quarta pesa mais do que a crônica fria dos resultados.
É legítimo interpretar essa noite não apenas como um resultado isolado, mas como um ponto na trajetória de uma carreira que acumula significado para a memória esportiva italiana: estádios e pistas onde Fontana competiu tornaram-se também espaços de narrativa coletiva — de identificação, disputa e, por vezes, frustração. Afastada do pódio por uma manobra contestada, a atleta deixa o gelo com a sensação de missão incompleta, enquanto o circuito do short track segue exibindo sua natureza imprevisível, técnica e, sobretudo, humana.



















