Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
A cerimônia de abertura da Milano Cortina 2026, realizada em um San Siro completamente lotado, expôs não apenas a grandiosidade do espetáculo esportivo, mas também as tensões contemporâneas que atravessam o esporte. Na noite de sexta-feira, 6 de fevereiro, os 61.000 espectadores presentes reagiram com aplausos, vaias e manifestações espontâneas que transformaram a passagem das delegações em pequenos relatos de geopolítica e memória.
O momento mais caloroso do público foi reservado à delegação da Ucrânia. Os 46 atletas que desfilaram foram recebidos por uma ovação que percorreu todo o estádio. Em imagens que resumem a ambivalência do torneio — festa e política entrelaçadas — a portabandiera Yelyzaveta Sydorko, patinadora de velocidade, mostrou-se emocionada e colocou a mão no peito enquanto recebia o combustível moral de uma plateia inteira.
Paradoxalmente, outras passagens foram marcadas por sinais de discordância. Por um lado, a delegação dos Estados Unidos foi aplaudida pelo público, mas, quando os enormes telões mostraram o vice-presidente americano J. D. Vance acompanhando a cerimônia, surgiram vaias e gritos de “buu” de parte das arquibancadas. O episódio ilustra como a presença de figuras políticas, mesmo em segundo plano, pode transformar um gesto cerimonial em catalisador de opiniões.
Mais direta foi a reação à delegação de Israel, que recebeu vaias ao entrar no gramado do estádio. A comitiva israelense contou com dois portabandiera: Mariia Seniuk, escalada para o patinagem artística, e Jared Firestone, que competirá no skeleton. As vaias não anularam o rito esportivo, mas o colocaram sob uma lente que transcende as pistas e as pistas de gelo: o esporte como palco de disputas morais e simbólicas.
San Siro, estádio emblemático das cidades de Milão e região, viveu a convergência do espetáculo e do conflito. O sold out — 61 mil pessoas — confirmou o apetite público pelo evento, mas também apontou para a complexidade de realizar uma festa global em tempos de polarização. As reações da plateia não são apenas espontâneas: são parte do arquivo público que os Jogos deixam na memória coletiva.
Como observador que considera o esporte em suas dimensões sociais e identitárias, é possível dizer que a cerimônia inaugurou mais do que competições: instaurou narrativas. A ovacionada Ucrânia levou ao estádio um símbolo de resistência; as vaias a Israel e a J. D. Vance apontam para debates que continuarão fora das arenas. Esses episódios não desmerecem o evento, mas o tornam também um registro das contradições da Europa contemporânea — onde a festa olímpica coexiste com disputas de senso comum e memória política.
Em suma, a abertura da Milano Cortina 2026 em San Siro foi, sobretudo, um espetáculo político-cerimonial: belo, tenso e revelador. As próximas semanas dirão se as pistas e as emoções conseguirão neutralizar, ou apenas deslocar, esses sinais para além do estádio.






















