Milano‑Cortina 2026 virou manchete nacional por uma razão curiosa: a seleção dos tedofori, os portadores da tocha olímpica. O caso ganhou tom de farsa quando um dos escolhidos, conhecido como Uomo Gatto (Gabriele Sbattella), passou a ser o foco da indignação política e midiática — enquanto os problemas estruturais, os atrasos e os gastos públicos obscenos permanecem no escuro.
Ao acompanhar a matéria com apuração rigorosa e cruzamento de fontes, fica evidente que o episódio dos tedofori é sintoma, não causa: expõe uma gestão superficial do Comitê Organizador e a instrumentalização do evento para interesses privados e de visibilidade. Ainda assim, não é esse o dano mais grave. Há um rastro muito maior de desperdício e gestão danosa ao redor dos Jogos.
Abaixo do ruído midiático sobre quem acenderá a tocha, persistem atrasos preocupantes em obras essenciais — do Palazzetto di Santa Giulia para o hóquei em Milão até a possível não conclusão da cabinaovia de Socrepes. Instalações com calendário apertado a poucos dias da cerimônia inaugural, projetos que podem se transformar em catedrais no deserto ou, pior, em bens que beneficiarão majoritariamente investidores privados em detrimento do patrimônio coletivo.
Os fatos verificados apontam ainda para irregularidades financeiras: um rombo de centenas de milhões nas contas da Fondazione Milano‑Cortina, práticas contábeis para maquiar perdas, despesas extras que as empresas transferiram ao erário e contratos que favorecem interesses determinados. Denúncias e documentos revelados por outros veículos, e que confirmamos em parte, sugerem um padrão de governança permissiva — quando não conivente.
Curioso é o comportamento da esfera política. Personalidades como Matteo Salvini exploraram o episódio midiático para conquistar fácil capilaridade pública; figuras como Francesco Paolo Abodi seguiram em tom defensivo. Organizou‑se uma reunião urgente no governo para tratar da polêmica dos portadores da tocha, enquanto as mesmas autoridades mostraram escassa ou nula diligência diante dos problemas financeiros e de obra.
O país que se comove com a figura do Uomo Gatto — um voluntário que, anos atrás, já ajudou no estádio Olímpico durante os Europeus de futebol — parece ter perdido o senso crítico quando o tema são os interesses econômicos que cercam os Jogos. Entre influenciadores, artistas e indicados por patrocinadores, houve uma conversão do rito olímpico em vitrine pessoal. Em alguns casos, a escolha feriu regulamentos básicos, como a inclusão de ex‑atletas com histórico proibitivo.
Nossa avaliação, com a clareza que exige a reportagem pura — apuração in loco e confrontação de documentos — é que o foco do debate público foi deslocado artificialmente para um pretexto midiático. O que deveria mobilizar indignação sistêmica são as perdas orçamentárias, as obras em risco e as decisões que transferem riqueza pública para mãos privadas.
Se existe uma lição imediata, é esta: a política reage com pressa quando há retorno de imagem fácil. O mesmo vigor raramente é aplicado ao controle fiscal e à transparência administrativa. Enquanto isso, a Milano‑Cortina 2026 corre o risco de entrar para a história não como um evento exemplar, mas como um caso‑modelo de má gestão e desperdício.
Maior transparência, auditorias independentes e responsabilização administrativa são medidas imprescindíveis para que os Jogos não se transformem em mais um capítulo de perdas para o público. Sem isso, a indignação continuará sendo seletiva: alto‑falante para um Uomo Gatto, silêncio para os bilhões.






















