Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Às vésperas dos Jogos de Inverno, o mercado hoteleiro de Milão reflete uma combinação previsível de procura concentrada e pressão sobre preços. Segundo um estudo da Albergatore Pro, a tarifa média diária para um quarto de hotel duplo em Milão alcança 299,4 euros no período da Milano Cortina 2026. O número sintetiza não apenas o caráter momentâneo de uma demanda turística aguda, mas também as tensões estruturais que atravessam a oferta hoteleira urbana.
O levantamento, baseado em modelos previsionais alimentados por reservas já confirmadas em dezenas de estabelecimentos da cidade e da área metropolitana, cruzou dados de ADR (Average Daily Rate), fluxos turísticos e séries históricas. Nele, a capital lombarda aparece como epicentro de 13 eventos de grande porte — dos quais 11 se repetem anualmente — que, somados aos Jogos, devem gerar mais de 5,6 milhões de presenças estimadas na cidade.
Entre as ocasiões que mais elevam o ADR em relação à média anual, destacam-se a Design Week, com aumento de +107,4%, e a BIT (Borsa Internazionale del Turismo), com +91,2%. Esses picos explicam em grande parte a elasticidade de preços observada em Milão: eventos temáticos e feiras setoriais comprimem a oferta disponível e deslocam padrões de consumo que impactam tanto hotéis de rede quanto empreendimentos independentes.
Do ponto de vista histórico e social, a presença simultânea de Olimpíadas e Paralimpíadas (6 a 15 de março) insere Milão num itinerário de visibilidade internacional que traz benefícios reputacionais e desafios práticos. A cidade, centro financeiro e cultural, não apenas hospeda visitantes: ela negocia espaços urbanos, mobilidade e serviços num curto período em que a demanda supera de forma explícita a capacidade instalada.
Para gestores e planejadores, o dado de 299,4 euros é indicativo. Por um lado, confirma o potencial de receita extraordinária que grandes eventos proporcionam; por outro, sinaliza riscos de exclusão e deslocamento de turistas de menor poder aquisitivo e de residentes em busca de alojamento temporário. A taxa média elevada também remete às decisões de longo prazo sobre expansão hoteleira, regulamentação de plataformas de aluguel de curta duração e investimentos em transporte e infraestrutura turística.
Por fim, cabe notar que o impacto econômico dos eventos listados — Fashion Week, MiCo, Eicma, Lift, Artigiano in Fiera, Pride, entre outros — configura um mapa de sazonalidade muito distinto do resto da Europa. A Milano Cortina 2026 será uma pressão de curta duração, porém reverberante: testará mecanismos de governança urbana e a capacidade do setor hoteleiro de transformar visibilidade em desenvolvimento sustentável, sem perder de vista a memória coletiva da cidade.






















