Hoje começam os Jogos da 25ª edição dos Giochi Invernali e com eles reaparece uma narrativa que mistura encanto e apreensão. O New York Times descreve o evento como um verdadeiro pesadelo logístico: oito centros espalhados pelo norte da Itália, unidos por túneis, trens extras e linhas de ônibus reforçadas — cada intervenção transformada em potencial ponto de falha. Como observador atento, sinto que é como tentar costurar um manto com retalhos de paisagens: cada pedaço lindo, mas nem sempre fácil de alinhar.
Os locais de competição estão separados por centenas de quilômetros e, mesmo quando parecem próximos no mapa, são separados por estradas sinuosas de montanha e vales profundos. A prova de descida livre masculina será em Bormio, a distância de Milão; o esqui nórdico encontra-se em Val di Fiemme; o biatlo em Anterselva, na borda com a Áustria. Essa dispersão foi apresentada pelos organizadores como uma solução de sustentabilidade — sem megaobras novas, apenas ajustes nas infraestruturas locais, inclusive túneis com aquela curiosa bênção episcopal — e um convite ao público para descobrir uma suposta “Itália autêntica” num roteiro quase obrigatório.
Mas a imprensa internacional não tem alisado essa narrativa. O tabloide alemão Bild tem criticado os atrasos crônicos nas obras, apontando problemas como os da funivia Apollonio‑Socrepes, em Cortina. A cobertura descreve o clima nos canteiros como um misto de impaciência e incerteza: previsões que oscilam entre duas semanas e dez dias, um capataz que evita falar e o mantra resignado de “acabaremos, mais cedo ou mais tarde”.
Da França, Le Monde acende outro foco de preocupação: a produção maciça de neve artificial. Segundo o jornal, foram gerados 1,6 milhões de metros cúbicos de neve para assegurar as provas — um prodígio tecnológico que consome água e energia e que provoca críticas de ambientalistas e cientistas. É como ver uma colheita que exige irrigação artificial: fértil, talvez, mas à custa de recursos que pertencem ao tempo e ao território.
Enquanto as vozes estrangeiras desenham o quadro de um evento costurado às pressas, a Itália corre o risco de apresentar ao mundo um espetáculo muito “à italiana”: charme e retórica sobre inovação e sustentabilidade, mas uma máquina logística que parece mais empenhada em fechar prazos do que em garantir qualidade e solidez. Para quem vive na cadência das estações e observa o “tempo interno do corpo” da cidade, essa tensão entre imagem e prática soa familiar — é a respiração da cidade em dias de festa, mas também em noites de vigília.






















