Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Espresso Italia
A cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno Milano Cortina 2026 consolidou, na noite desta inauguração, uma leitura do esporte como memória coletiva e representação cultural. O palco central foi o estádio de San Siro, em Milão, mas a cerimônia aconteceu em diálogo simultâneo com Cortina, Livigno e Predazzo: um gesto simbólico que buscou traduzir a natureza plural e territorial destes Jogos.
Com o estádio Mekazza lotado, o espetáculo de mais de três horas partiu da linguagem do esporte e se moveu por camadas de identidade nacional: luzes, música, dança e performances que procuraram costurar tradição e contemporaneidade. Entre os momentos de maior impacto, a jovem atriz e instrumentista Matilda De Angelis atuou como maestrina de uma abertura pensada em termos de narração coletiva, enquanto a presença internacional de Mariah Carey — que reinterpretou “Nel blu, dipinto di blu” e apresentou “Nothing Is Impossible” — marcou a ambição global do evento.
Na tribuna de honra, o Presidente da República, Sergio Mattarella, acompanhou a cerimônia ao lado da presidente do Comitê Olímpico Internacional, Kirsty Coventry. A bandeira italiana foi conduzida por Vittoria Ceretti e o Hino Nacional foi interpretado por Laura Pausini; o ator Pierfrancesco Favino recitou “L’infinito”, de Giacomo Leopardi, inserindo um recorte literário num rito que é também simbólico.
O espetáculo não evitou tensões: a entrada das delegações foi pontuada por manifestações do público — vaias às delegações de Israel e dos Estados Unidos, aplausos entusiasmados para a Ucrânia — sinalizações que lembram que grandes eventos não estão fora do campo político e emocional. A Grécia abriu a parada, como manda a tradição, e a Itália — anfitriã — fechou a marcha dos atletas.
Antes do ato final, houve falas institucionais: Giovanni Malagò, presidente da Fundação Milano Cortina 2026, e Kirsty Coventry discursaram. Em seguida, Mattarella declarou oficialmente abertos os Jogos de Inverno. Interlúdios musicais com Andrea Bocelli e Ghali conduziram ao momento da chama.
O trajeto final da tocha teve nomes que atravessam gerações e disciplinas: ex-jogadores de futebol como Beppe Bergomi e Franco Baresi trouxeram a chama para o centro de San Siro, e a sequência passou pelas estrelas do voleibol italiano, campeãs mundiais de 2025 — primeiro o trio masculino e feminino com Cambi, Egonu, Danesi e depois Anzani, Porro e Giannelli — ressaltando a conexão do esporte coletivo com a ideia de nação.
Os últimos condutores da tocha em Milão foram dois ícones dos Alpes: os ex-esquiadores Alberto Tomba e Deborah Compagnoni, que acenderam o braseiro na Arco della Pace; em Cortina, a honra coube a Sofia Goggia. Com esses gestos concluiu-se o rito inaugural: os Jogos de Milano Cortina 2026 estavam oficialmente abertos.
Mais do que um espetáculo, a cerimônia funcionou como um espelho das contradições e das afinidades italianas: uma tentativa consciente de unir o regional e o nacional, a memória esportiva e a projeção internacional, num momento em que o esporte volta a se afirmar como palco de identidade e disputa simbólica.





















