Por Otávio Marchesini — Em um dia em que a cerimônia institucional se mistura com diplomacia e logística urbana, Milano‑Cortina 2026 vive uma manhã de símbolos e prioridades. A cidade recebeu a fiamma olimpica e acolheu chefes de Estado e autoridades: enquanto a chama assume o seu papel ritual, o espaço público é reordenado para acomodar segurança, deslocamentos e uma agenda política intensa.
O presidente da República italiana, Sergio Mattarella, chegou ao Villaggio Olimpico em via Lorenzini. O gesto tem significado duplo: por um lado, é o reconhecimento institucional ao esforço de meses de preparação; por outro, é a confirmação de que as Olimpíadas são, também, um palco de Estado. Mattarella visitou instalações e encontrou parte da delegação italiana. Entre os que o receberam estava Arianna Fontana, uma das quatro porta‑bandeiras da Itália na cerimônia de abertura — figura que simboliza a continuidade entre gerações de sucesso esportivo e presença pública.
Nos bastidores, uma nota política não passou despercebida. A não eleição de Giovanni Malagò para o board do Comitê Olímpico Internacional (CIO) surpreendeu. Em declarações colhidas à margem da visita, o presidente do CONI, Luciano Buonfiglio, admitiu surpresa, elogiou a liderança de Malagò e, com prudência institucional, deslocou o foco para o objetivo coletivo: “temos de levar às melhores práticas estas Olimpíadas”. A frase sintetiza a tensão habitual entre ambição individual e responsabilidade coletiva quando um país organiza um megaevento.
No plano esportivo, a manhã trouxe o primeiro resultado com celebridade: no curling misto, Stefania Constantini e Amos Mosaner garantiram o primeiro triunfo italiano, vencendo a Coreia do Sul por 8‑4. Não se trata apenas de um placar: é um lembrete de que, por trás dos protocolos, há atletas cuja trajetória será, para muitos, a razão principal da presença pública e midiática nestes dias.
À noite, Milão será palco de uma das cenas mais observadas do dia: a cena institucional entre líderes, marcada para a Fabbrica del Vapore. A realização de um jantar desse porte implica alterações significativas na mobilidade urbana. A cidade — entre orgulho e inconvenientes — reconfigura rotas, restringe ruas e dispõe medidas de segurança que afetam moradores, comércio e turismo. É a face visceral do custo operacional de uma diplomacia de vitrine.
No plano diplomático, chegaram figuras relevantes dos Estados Unidos: o vice‑presidente JD Vance pousou em Malpensa por volta das 11h, acompanhado da esposa Usha e dos filhos, e foi recebido por representantes oficiais, entre eles o embaixador americano Tilman Fertitta. Horas antes, havia chegado o secretário de Estado norte‑americano, Marco Rubio. Presenças que atestam como as Olimpíadas funcionam também como arena de relações internacionais, com efeitos práticos imediatos sobre protocolos de segurança e sobre a narrativa que o país anfitrião deseja projetar.
Observando os acontecimentos com distância analítica, percebe‑se que Milano‑Cortina 2026 é simultaneamente celebração esportiva, demonstração de capacidade organizativa e palco diplomático. A fiamma olimpica que circula pela cidade ilumina essa tensão: a chama é símbolo de união e competição pacífica, mas sua passagem desnuda desafios reais — mobilidade urbana, coordenação institucional e o equilíbrio entre imagem e substância.
Como repórter com olhar histórico e cultural, registro que os próximos dias serão decisivos não apenas pelos resultados nas pistas mas pela capacidade italiana de transformar infraestrutura e protocolo em legado duradouro. A chama acesa hoje deve servir, mais que para espetáculo, como catalisadora de políticas públicas que resistam ao apagar das luzes.






















