Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
O palco da Arena de Verona ofereceu, na noite de encerramento, uma imagem que guardará memória e metáfora: o escuro absoluto por alguns instantes, seguido pelo apagar simultâneo de dois braseiros — um gesto inédito que selou o fim dos Jogos de Milano‑Cortina 2026. A cerimônia, pensada tanto para o público presente quanto para a transmissão difusa que caracterizou estes Jogos, trabalhou a emoção pela sugestão e pela forma, mais do que pela exibição ostensiva.
A concepção técnica e cenográfica ocupou toda a superfície do parterre, num desenho inspirado nos círculos e reflexos que uma gota d’água provoca ao cair. Intitulada ‘Beauty in action’, a peça final bebeu literal e simbolicamente do elemento água: desde o gelo das montanhas alpinas até os mares que margeiam a península italiana. No complexo arranjo, mais de 10.000 LEDs, caixas modulares e espelhos criaram superfícies cintilantes e camadas visuais que dialogaram com a coreografia e a música.
O início da cerimônia teve um tom íntimo. O ator Francesco Pannofino surgiu em um curta filmado nas “vísceras” da Arena, convocando figuras da ópera — Rigoletto, Aida, Figaro, Alfredo — que simbolizam a tradição teatral italiana. Um detalhe discretamente político e identitário apareceu no figurino de Aida: o traje foi confeccionado com mantas térmicas de alumínio, as mesmas usadas em operações de salvamento marítimo, cruzando cultura e realidade social.
O momento mais comovente foi a entrada da bandeira italiana trazida para dentro da Arena, acompanhada pela trombeta do jazzista Paolo Fresu e pelo canto do Coro da Fundação Arena de Verona. Foi um lembrete da função cívica do espetáculo: unir rito e comunidade, representação e afetividade.
Estes primeiros Jogos ditos “difusos” consumaram essa ideia: o coração pulsou na Arena, mas a festa transbordou para o exterior. Uma orquestra posicionada no vizinho Teatro Filarmonico, com a presença de Benedetta Porcaroli, ampliou a experiência sonora e simbólica entre espaços históricos da cidade.
Em termos de espetáculo, o tributo ao território italiano encontrou sua imagem mais poética no Water Cycle, quando o bailarin étoile Roberto Bolle emergiu quase magicamente de uma abertura no palco e realizou, pela primeira vez naquele contexto, uma ação aérea de rara beleza. A cantora Joan Thiele colaborou com uma leitura lírica de “Il mondo” de Jimmy Fontana, transformando a canção em uma sequência onírica e convidativa ao recolhimento.
Após o repasse simbólico da bandeira olímpica para a França — anfitriã dos Jogos de Inverno de 2030 — vieram os pronunciamentos oficiais. A presidente do Comitê Olímpico Internacional, Kirsty Coventry, agradeceu aos anfitriões: ‘‘Grazie Italia per questi giochi magici’’, saudação que reconheceu a capacidade italiana de combinar paixão e respeito nas arquibancadas e nas ruas. O tom otimista foi reforçado pelo presidente da Fondazione Milano Cortina, Giovanni Malagò, que celebrou o cumprimento das promessas e a qualidade da realização.
Mais do que encerrar um ciclo competitivo, a cerimônia em Verona serviu para reafirmar o papel do espetáculo esportivo como dispositivo de memória e identidade. O uso de elementos técnicos avançados somado a referências à tradição lírica italiana compôs um ato final que tentou, com parcimônia e elegância, traduzir o que estes Jogos significaram: não só uma disputa entre atletas, mas uma narrativa coletiva sobre região, país e paisagem.
Ao cabo, o escurecer do anfiteatro e o duplo apagar dos braseiros permanecerão como imagem-chave: dois focos de chama que se extinguem ao mesmo tempo, suspendendo o rito e devolvendo à cidade a quietude que sucede toda festa pública.






















