A vida às vezes se parece com um ciclo das estações: raízes que esperam o momento certo para brotar. É assim que se pode ler a decisão de Mica Moore, que decidiu abraçar oficialmente sua origem e representar a Giamaica no bob nos Jogos de Milano Cortina 2026. A atleta, nascida em Newport, no País de Gales, volta suas atenções para as cores caribenhas e transforma herança em horizonte.
Mica Moore, 32 anos, já deixou sua marca no gelo sob outra bandeira: foi uma das pioneiras do bob feminino britânico e, ao lado de Mica McNeill, conquistou o oitavo lugar em PyeongChang 2018 — o melhor resultado da Grã-Bretanha na disciplina até então. Em dezembro de 2024, ao obter a cidadania jamaicana, ela uniu formalmente trajetória esportiva e raízes familiares, ligando sua carreira à memória dos avós.
Ao escolher a Giamaica, Mica Moore não faz apenas uma mudança de uniforme. Ela reinventa uma narrativa: do cinema e de Cool Runnings — que eternizou o sonho do bob jamaicano — para uma presença consolidada e competitiva nas pistas. Para Milano Cortina 2026, Moore entra no monobob feminino com a missão de representar e inspirar, colocando-se como peça central de um movimento que mistura desempenho e identidade.
A delegação jamaicana chega aos Jogos com três vagas asseguradas: o monobob feminino com Mica Moore, além do bob a dois e do bob a quatro masculinos. A expectativa da federação é que Moore eleve o patamar do monobob jamaicano — que em Pequim 2022 contou com Jazmine Fenlator‑Victorian na 19ª colocação — e projete a presença tropical em esportes de inverno para novas gerações.
Há algo de poético em ver uma atleta que cresceu entre as brumas do País de Gales e os sussurros das histórias familiares agora vestir a camiseta da ilha caribenha no grande teatro olímpico. É como se o corpo acompanhasse um tempo interno, ajustando-se ao pulso das memórias: a técnica do trenó encontra a força da ancestralidade. Moore, ao dizer “sou orgulhosamente jamaicana”, resume essa colheita de identidade e ambição.
Além do simbolismo, a escolha confirma que o bob jamaicano deixou de ser apenas um conto inspirador para virar projeto esportivo estruturado — capaz de obter vagas olímpicas e competir com países tradicionalmente dominantes. Em Milano Cortina, o nome de Mica Moore estará na linha de partida de uma história que mistura suor, mar e gelo, e que promete ecoar como inspiração para atletas de países tropicais que sonham com pistas congeladas.
Enquanto o mundo observa a respiração das montanhas italianas, Moore prepara-se para deslizar e reescrever capítulos do bob feminino com a sensibilidade de quem carrega duas pátrias no peito. A pista de Cortina será uma paisagem onde a herança encontra a performance — e onde, talvez, a frase que marcou o bob jamaicano volte a soar como um convite: “Se você pode imaginar, pode realizar”.






















