Por Otávio Marchesini – Espresso Italia
Quando o protocolo cede lugar à emoção, a cena torna-se um retrato daquilo que o esporte representa para uma comunidade. Em Cortina d’Ampezzo, diante das arquibancadas cheias e dos tradicionais campanários sonoros, o Presidente da República, Sergio Mattarella, recebeu aplausos calorosos e um informal “Sergio sei un grande” ao se acomodar nas poltronas destinadas às autoridades. Mas o foco, naquela tarde de competição, estava em outro nome: Federica Brignone, que conquistou a sua primeira medalha de ouro olímpica no Super-G feminino.
O encontro entre o chefe de Estado e a campeã foi breve, porém carregado de simbolismo. Mattarella saudou Brignone com um largo sorriso e um abraço que pareceu resumir a emoção coletiva de uma nação inteira. “Bravissima“, disse o Presidente, elogio que ecoou não apenas como reconhecimento esportivo, mas também como homenagem à persistência de uma carreira construída ao longo de muitos anos.
Em seguida, Mattarella observou: “Ci contavi” — uma expressão que, traduzida à esfera pública, reconhece a expectativa depositada sobre a atleta. Brignone respondeu com a modéstia característica daqueles que armazenam vitórias como pó de estrada: “forse più loro”, referindo-se aos companheiros de equipe e aos dirigentes do esporte italiano. A resposta encerra uma narrativa velha como o próprio esporte: conquistas individuais que dependem de estruturas coletivas.
Ao redor, o ambiente remeteu às imagens clássicas das grandes vitórias: torcedores batendo sinos e acionando cornetas de ar comprimido, jaquetas brancas da seleção italiana contrastando com o azul institucional dos Carabinieri, e, no centro do registro fotográfico, o brilho do ouro. Houve ainda a tradicional foto de grupo, documento público que celebra não apenas o triunfo no pódio, mas a convergência entre Estado, federações e clubes — agentes que moldam a paisagem esportiva do país.
Mais do que o relato técnico de uma prova, a cena entre Mattarella e Brignone traz à tona questões identitárias: o lugar da vitória esportiva na construção da memória coletiva, a política simbólica de um Presidente que acompanha seus atletas em momentos de glória, e a reafirmação do papel de eventos como Cortina para reanimar tradições regionais e projetá-las no léxico nacional.
Para além das manchetes e do brilho imediato da medalha, fica a imagem de uma atleta reconhecida pelo Estado e por sua torcida — e a lembrança de que, em grandes vitórias, o gesto privado do abraço torna-se gesto público, capaz de traduzir em uma fotografia o entrelaçamento entre competição, pertencimento e representação.
Espresso Italia — A cobertura que lê o jogo como história.






















