Em uma temporada que respira mudança como a paisagem que se transforma entre outono e inverno, Lucas Braathen desenha seu próprio mapa entre as curvas da neve e as escolhas de identidade. Nascido a 19 de abril de 2000 em Oslo, filho de pai norueguês e mãe brasileira, Braathen cresceu embalado pela rotina das montanhas nórdicas, mas sempre com uma raiz tropical a puxá‑lo para fora do casulo: hoje ele representa o Brasil nas grandes competições, inclusive em Milano Cortina 2026.
Especialista das técnicas, com destaque no slalom e no gigante, Lucas é conhecido por um esqui agressivo e por sua habilidade de remontar nos segundos percursos — como um rio que encontra atalhos e volta a correr mais forte. A primeira aparição em Coppa del Mondo foi em 2018, já marcando pontos no gigante de Val d’Isère. O primeiro triunfo veio em outubro de 2020, no gigante de Sölden, onde se tornou o primeiro nascido no novo milênio a vencer essa prova. Em 2022, escreveu uma das páginas mais cinematográficas da modalidade: em Wengen venceu o slalom saindo da 29ª posição da primeira manche — uma remontada que parecia colheita tardia, mas abundante.
Na temporada 2022‑23 conquistou a taça de slalom da Coppa del Mondo, com três vitórias e vários pódios, mostrando consistência e estilo. No total acumula cinco triunfos em Coppa del Mondo — três em slalom e dois em gigante — e diversos pódios, além de um respeitável quarto lugar na classificação geral em uma de suas melhores safras.
Participou das Olimpíadas de Pequim 2022 vestindo a Noruega, sem conseguir terminar as provas. Em 2023 viveu uma pausa: desligou‑se da equipa norueguesa após divergências que envolveram a gestão de patrocinadores e decidiu recolher forças. Como numa poda que prepara a planta para florescer melhor, voltou em 2024 com uma decisão que ressoou para além das pistas: mudou oficialmente sua nacionalidade desportiva para o Brasil, com a anuência da federação norueguesa.
A temporada 2024‑25 marcou o retorno estável, com vários pódios, ainda que sem vitórias. Mas o inverno de 2025‑26 trouxe um marco histórico: ao vencer o slalom de Levi, Lucas Braathen assinou a primeira vitória de sempre de um atleta representando o Brasil numa corrida de Coppa del Mondo de esqui alpino. Não é apenas um troféu; é um ponto de exclamação numa carreira forjada por coragem, escolhas radicais e pela recusa em se encaixar em moldes prontos.
Além do talento técnico, Braathen se destaca pelo carisma, pelo look por vezes excêntrico e por uma comunicação direta que o faz facilmente reconhecível no Circo Bianco. Ele celebra com naturalidade sua dupla identidade norueguesa‑brasileira, lembrando que o lado brasileiro influencia seu jeito de viver o esporte — mais leve, mais criativo, quase como quem dança entre as árvores na respiração da cidade.
De jovem que sonhava ser jogador de futebol — com Ronaldinho entre suas inspirações — a atleta que redesenhou fronteiras do esqui moderno, Lucas Braathen traz no gesto entre os slaloms a poesia de quem aprendeu a ouvir o próprio tempo interno. Sua vitória histórica em Levi não celebra somente um país no mapa do esqui; celebra a liberdade de escolha, o equilíbrio entre raízes e ventos novos, e a habilidade de transformar uma carreira em manifesto.






















