Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
O Lago di Anterselva, em Alto Adige, volta a ser palco de uma experiência esportiva que cruza resistência física, risco calculado e imagem simbólica: entre os dias 6 e 8 de março de 2026, o apneísta toscano Luca Casalini realizará três tentativas de recorde mundial de apneia dinâmica sob o gelo, todas sem o uso de muta.
Casalini, 43 anos, que já vem se dedicando a episódios extremos dessa especialidade e foi campeão italiano de apneia estática em 2021, pretende inscrever seu nome no topo do mundo nas três variações da disciplina. Na sexta-feira, 6 de março, o objetivo é completar 107 metros de nado por baixo do gelo na modalidade de apneia dinâmica com nadadeiras. No dia 7, estará em cena o desafio com monopinna. E, por fim, no dia 8, o atleta tentará a distância na variante de apneia dinâmica sem equipamentos.
Não se trata apenas de um gesto atlético isolado: nadar dezenas de metros sob uma camada de gelo, sem proteção térmica, reconfigura a relação tradicional entre corpo humano e paisagem alpina. As temperaturas locais podem chegar a -15 °C, o que transforma cada segundo submerso em uma prova de controle fisiológico e resistência mental. A opção de recusar a muta aumenta a exposição ao frio e realça o caráter ritual da tentativa, algo que Casalini e sua equipe tratam com o respeito técnico que a prática exige.
A coordenação operacional é responsabilidade da ASD Bolzano Sub – STC Bozen, que colocou em campo uma estrutura com mais de trinta profissionais para segurança, cobertura e logística. Ao lado desta associação bolzanina, participam clubes filiados à FIPSAS, como o Club Subacqueo Rane Nere Trento, o Gruppo Sommozzatori Riva e o Thetis Sub. A Federação Italiana Pesca Sportiva Attività Subacquee e Nuoto Pinnato acompanha e valida a modalidade, considerando a apneia sob o gelo uma especialidade de grande apelo.
Do ponto de vista cultural, a iniciativa insere-se numa tradição europeia de confrontos com ambientes extremos — das travessias alpinas às mergulhos polares — que têm, simultaneamente, dimensão esportiva e performática. Para uma região como o Alto Adige, onde a paisagem e o clima já são elementos identitários, uma tentativa de recorde dessa natureza funciona como espelho das tensões entre adaptação humana e ambiente.
Casalini assume a responsabilidade pública do gesto: não busca espetáculo vazio, mas um limiar técnico que exige planejamento, equipes treinadas e protocolos de segurança. Em lago gelado, cada metro percorrido sob o gelo é também uma afirmação sobre os limites do corpo e sobre o modo como o esporte contemporâneo transforma provas físicas em narrativas coletivas.
Nos próximos dias, a Espresso Italia acompanhará os desdobramentos em Anterselva, com atenção aos aspectos esportivos e aos efeitos simbólicos desta tentativa que mistura ciência, coragem e tradição alpina.






















