Lindsey Vonn: a última descida da ‘Rainha da Velocidade’ e o preço do retorno
Há atletas que vencem e atletas que se tornam mito. Lindsey Vonn pertence à segunda categoria. Sua trajetória não é apenas uma lista de recordes: é uma epopeia de quedas estrondosas e ressurgimentos aparentemente impossíveis, cujo capítulo mais recente se desenrolou nas pistas de Milano Cortina 2026.
Na descida olímpica em Cortina d’Ampezzo, a diferença entre uma linha de corrida e um acidente catastrófico foi microscópica. Por apenas 13 cm, seu braço direito ficou preso numa porta e a queda foi inevitável. O diagnóstico inicial confirmou uma fratura complexa da tíbia, estável, mas que exigirá múltiplas intervenções cirúrgicas para reparação adequada. Ainda que as lesões anteriores e o histórico de reconstruções de ligamentos façam parte da sua história, foi essa reação imediata de pista que determinou o fim brusco daquele dia.
O Team USA resumiu a sensação que muitos tiveram: Per sempre uma lenda. Obrigado, Lindsey. A mensagem nas redes sociais sublinha o que seu percurso representa para gerações que cresceram vendo uma mulher desafiar limites considerados imprudentes por muitos.
Solidariedade veio também do esporte vizinho: Jannik Sinner, que foi esquiador competitivo na infância, deixou uma mensagem simples e direta — Estou pensando em você, Lindsey. A imagem que acompanha seu post, os dois lado a lado numa pista, interessa menos pelo tom pessoal e mais como símbolo de como figuras do esporte moderno circulam entre identidades profissionais e afetivas.
Recordar o passado de Lindsey Vonn é essencial para compreender a dimensão do que se perdeu temporariamente. Até 2019, quando ela se aposentou pela primeira vez, eram 84 vitórias na Copa do Mundo, três medalhas olímpicas incluindo o ouro em downhill em Vancouver 2010, quatro Globes gerais, e dezenas de títulos de disciplina que a transformaram na encarnação do que hoje se chama velocidade feminina. Por um longo período, nenhuma mulher ousou trajetórias tão extremas; nenhuma domou a velocidade com igual autoridade.
Mas o custo desse império foi altíssimo. Décadas de cirurgias, fraturas e reconstruções converteram o corpo de Vonn numa espécie de mapa de cicatrizes. A aposentadoria de 2019 parecia definitiva, um fechamento coerente a uma carreira que havia dado tudo. E, no entanto, no final de 2024, aos 40 anos e após uma prótese parcial no joelho, ela anunciou um retorno que não se quis nostálgico. “Não voltaria se não achasse que podia vencer”, disse. Essa frase diz muito sobre sua ambição e sobre as mudanças no esporte que permitem trajetórias atípicas.
O que veio depois confirmou o caráter singular dessa decisão. Entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, Vonn subiu ao degrau mais alto em St. Moritz, tornando-se a esquiadora mais velha a conquistar uma prova de Copa do Mundo. Foi um feito com peso simbólico: renovou o debate sobre idade, recuperação e os limites da medicina esportiva, ao mesmo tempo em que reacendeu paixões que o esporte, com frequência, julga riscadas pelo tempo.
O sonho de competir em Cortina e fechar o ciclo olímpico em cenário italiano era mais que ambição pessoal. Para a narrativa coletiva do esporte europeu, representava a reinserção de uma figura cuja presença cruza fronteiras de mercado, memória e identidade. Estádios e pistas não são apenas lugares de competição: são palcos onde se negociam imagens do possível para corpos que envelhecem sob olhar público.
Agora, a reflexão se impõe. A queda em Cortina interrompe uma tentativa de reescrever a própria história, mas não apaga o legado já construído. A imagem de Vonn — suas vitórias, suas cicatrizes, seu retorno aos 40 — continuará a servir como referência para atletas e gestores que buscam entender como gerir carreiras em esportes de alto risco.
Enquanto isso, a prioridade é a recuperação. Procedimentos médicos, reabilitação e decisões sobre futuros competitivos dependerão de avaliações nos próximos dias e semanas. O que permanece certo é o lugar que Lindsey Vonn ocupa: não somente como campeã, mas como figura que atravessa a memória coletiva do esporte contemporâneo, lembrando que coragem sempre tem preço e significado social.
Otávio Marchesini – Repórter de Esportes, Espresso Italia






















