Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
O técnico do Bodo Glimt, Kjetil Knutsen, não escondeu um tom de apreensão ao comentar o episódio envolvendo Bastoni, que resultou na expulsão de Pierre Kalulu na partida entre Inter e Juventus. Em conferência de imprensa, realizada na terça-feira, 17 de fevereiro, o treinador norueguês disse estar “assustado” com a repercussão do lance e lançou um alerta sobre a necessidade de uma partida leal.
O lance em questão ganhou dimensão porque, além de influenciar diretamente o desfecho daquele clássico, toca em um tema estrutural do futebol moderno: o uso do VAR. Para Knutsen, o vídeoarbitragem deveria funcionar como um mecanismo capaz de coibir práticas antisportivas, e não de torná-las mais eficientes. “Os truques sujos pagam”, disse o treinador, “mas não deveria ser assim no futebol”.
É um comentário que merece ser entendido em duas frentes. Primeiro, como crítica à instrumentalização de recursos tecnológicos em benefício de gestos individuais ou táticos que violam o espírito do jogo. Segundo, como reflexo da tensão que clubes do porte da Inter impõem ao adversário: equipes experientes tendem a explorar todas as margens do regulamento, e sob essa lógica, a linha entre competência e astúcia desleal pode se tornar tênue.
Do ponto de vista do Bodo Glimt, a afirmação de Knutsen também é preventiva: a preocupação não é apenas com um lance isolado, mas com o enquadramento da partida que determinará a disputa nos play-offs da Liga dos Campeões. “Estamos prontos para enfrentar a Inter, que é uma equipe experiente e usa tudo o que pode”, declarou. O treinador norueguês sublinhou ainda que a prioridade de sua equipe será manter-se fiel ao próprio jogo e concentrar-se na gestão do tempo e dos momentos do confronto.
Enquanto analista, é necessário situar essa observação num panorama mais amplo. A tecnologia no futebol, como o VAR, nasceu para reduzir injustiças evidentes; contudo, seu desenvolvimento sem um alinhamento ético e cultural pode reproduzir, em escala técnica, as mesmas fraquezas humanas que deveria mitigar. O episódio com Bastoni torna-se assim um sintoma: a disputa pelo resultado ultrapassa o simples embate técnico e se instala nas áreas cinzentas do regulamento e da interpretação.
Para os torcedores e para a memória coletiva, o risco é duplo. Por um lado, perde-se clareza sobre o que constitui uma vitória legítima; por outro, instala-se uma normalização de gestos que corroem a confiança nas instituições e no espetáculo. A resposta, se houver, passa por uma atuação mais incisiva dos órgãos responsáveis — e, sobretudo, por uma mudança cultural que recoloque o respeito às regras e ao adversário no centro da competição.
Knutsen encerrou relembrando o foco do seu grupo: “Devemos ser nós mesmos o máximo possível”. Frase que, em tempos de decisões polêmicas e tecnologia ubíqua, soa também como um chamado à autenticidade no jogo. Se o futebol é, como sempre foi, espelho de uma sociedade, então episódios como esse nos convidam a refletir não só sobre táticas e árbitros, mas sobre que tipo de espetáculo e que tipo de valores queremos ver em campo.






















