Os episódios recentes entre Inter e Juve, especialmente a expulsão de Pierre Kalulu que colocou o árbitro Federico La Penna sob ameaças, reacendem uma discussão antiga e decisiva: qual é o papel do jogador diante do erro arbitral? O caso evidencia não apenas a fragilidade humana das decisões em campo, mas também a carga simbólica que cada gesto carrega para torcedores e para o próprio tecido social do futebol.
É inevitável, neste contexto, recordar dois gestos simples e contundentes do alemão Miroslav Klose, que funcionam como antítese do comportamento de Alessandro Bastoni em momentos em que a simulação parece prevalecer. Klose, cuja carreira soma Werder Bremen, Bayern de Munique, Alemanha e a passagem respeitosa pela Lazio, demonstrou em ocasiões distintas uma opção ética que transcende o resultado imediato.
Em 2005, na partida entre Werder Bremen e Arminia Bielefeld, o árbitro assinalou pênalti a favor de Klose após um suposto toque do goleiro adversário. O atacante levantou-se e informou ao juiz que a bola havia sido tocada primeiro pelo goleiro, persuadindo-o a anular a marcação. A cena é breve, mas densa: a integridade do gesto rompe a lógica instrumental que muitas vezes domina a competição.
Sete anos depois, em um Napoli-Lazio, Klose marcou um gol que saiu de uma jogada em que a bola tocou sua mão. Quando o árbitro questionou, ele admitiu o toque. “O árbitro me perguntou se eu havia tocado a bola com a mão e eu admiti; era o mínimo que eu podia fazer”, disse Klose ao ser homenageado pela federação alemã por aquele gesto. Palavras contidas, mas reveladoras de um código de conduta.
Comparar esses comportamentos ao episódio que envolveu Alessandro Bastoni, cuja reação em campo pareceu simular um contato que não existiu, não é apenas apontar “certo” e “errado”. É entender que o futebol moderno vive uma tensão: por um lado, o imediatismo do resultado e a pressão por desempenho; por outro, a responsabilidade coletiva — clubes, atletas, árbitros e torcidas — pela reputação do jogo. Quando um jogador opta por omitir ou inventar uma falta, ele altera não só uma decisão técnica, mas o contrato social que sustenta a confiança entre agentes do esporte.
Além disso, a reação pública — do linchamento moral nas redes aos ataques pessoais e, no caso de Federico La Penna, às ameaças — mostra como a tecnologia e a polarização amplificam o impacto de um erro. O árbitro permanece humano; a lente pública, porém, é implacável. Gestos como os de Miroslav Klose servem, então, como lembretes práticos de que o exercício da verdade em campo é possível e que pequenas decisões podem reparar grandes danos simbólicos.
O futebol italiano e europeu poderia ganhar com uma cultura que valorize mais esses atos. Não se trata de romantizar o passado, mas de reconhecer que a credibilidade de uma competição passa por comportamentos individuais. Em última análise, a pergunta que permanece é institucional: como promover incentivos — educacionais, disciplinares e culturais — para que o fair play deixe de ser exceção e se torne regra?
Não há soluções simples. Mas a lembrança dos gestos de Miroslav Klose oferece uma referência concreta: em um esporte que funciona como espelho de comunidades, a ética em campo é também política de memória. Em tempos de polarização e de ameaças a árbitros como Federico La Penna, aprender com exemplos públicos de responsabilidade pode ser o primeiro passo para recompor a confiança perdida.





















