Por Otávio Marchesini — Em uma noite que resgatou memórias e redesenhou expectativas, a seleção feminina da Itália alcançou uma vitória que vai além do placar: 4-1 sobre a França, na estreia do torneio olímpico de Milano Cortina 2026. O jogo, disputado na Milano Santa Giulia Ice Hockey Arena, foi palco de uma exibição de domínio tático e intensidade coletiva — reflexo de um trabalho de formação e ambição que a modalidade procura consolidar no país.
As estatísticas ajudam a contar a história sem exageros: as azzurre terminaram com 46 disparos ao gol, cerca de um terço a mais que as adversárias, e impuseram ritmo e posse em momentos cruciais. O resultado, porém, também carrega nomes e simbolismos. A atuação do goleiro Martina Fedel foi decisiva ao segurar investidas francesas e permitir que a equipe construísse a vantagem com segurança.
O roteiro do jogo teve contornos dramáticos e, ao mesmo tempo, um traço de justiça esportiva. A França foi quem abriu o placar, com Gabrielle De Serres, mas a Itália reagiu com firmeza: Kayla Tutino igualou ainda no primeiro tempo. No final do segundo período, Rebecca Roccella colocou as italianas em vantagem, e o terceiro tempo começou em velocidade com um gol precoce de Matilde Fantin, já considerada uma das estrelas do hóquei feminino italiano. A consolidação veio poucos minutos depois, com o tento de Katrin Della Rovere, cuja trajetória nas ligas profissionais norte-americanas trouxe experiência e frieza ao ataque.
A capitã Nadia Mattivi liderou o grupo em cena, e a torcida — numerosa e vocal — acompanhou o desfecho com o grito repetido de “Italia, Italia”. A vitória ganha peso se colocada no contexto histórico: a seleção feminina italiana só havia participado de uma edição olímpica, em Torino 2006, quando, anfitriã, sofreu cinco derrotas e um saldo de gols muito desfavorável (3 marcados e 48 sofridos). A lembrança daquela campanha serve hoje como parâmetro para medir o progresso estrutural e cultural do esporte no país.
O triunfo, embora celebrado, é o ponto de partida para desafios mais complexos. A Itália encara agora adversárias de maior tradição no hóquei: no sábado enfrentará a Suécia, na segunda-feira 9 medirá forças com o Japão e na terça-feira 10 duela com a Alemanha. Para avançar aos quartos de final será necessário terminar o grupo entre as três primeiras colocadas — objetivo que exige consistência e uma leitura tática apurada frente a esquemas mais robustos.
Como analista, vejo nesta vitória algo que transcende o resultado imediato: é um sinal de que o hóquei feminino italiano começa a afirmar identidade competitiva e a ocupar um espaço público mais amplo. Em arenas como a Milano Santa Giulia, o esporte se torna espetáculo coletivo e aparato de memória social — cada gol, cada defesa, participa de uma narrativa maior sobre investimento, visibilidade e repertório atlético.
Por fim, vale lembrar um marco simbólico: a primeira italiana a marcar em Jogos Olímpicos foi Sabina Florian, em 14 de fevereiro de 2006, contra a Rússia. Duas décadas depois, as azzurre compõem outro capítulo dessa história — e a vitória sobre a França é, por ora, sua melhor declaração.






















