Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Completar 80 anos poderia ser um convite à aposentadoria, a uma presença mais discreta na torcida. Para Hubert Bihler, porém, o aniversário é celebrado onde sempre esteve: no trabalho voluntário dos Jogos de Milano-Cortina 2026. Sob o programa Human Capital, dirigido por Anna Laura Iacone, Bihler recebe os cumprimentos dos colegas — muitos brincam: “Nonno, resta a casa?” — e ele responde com o sorriso e a rotina de sempre, ajustando acreditações e ocupando seu posto.
A trajetória de Hubert é, em boa parte, a história recente dos grandes eventos internacionais: são duas décadas de envolvimento direto com o esporte, 18 grandes compromissos internacionais e uma estreia que não se esquece — as Olimpíadas de Inverno de Vancouver 2010, onde trabalhou na mixed zone do sliding centre. “A primeira Olimpíada não se esquece”, lembra com a naturalidade dos veteranos que viram evoluções técnicas e humanas ao longo dos anos.
Entre as lembranças que carregou está o encontro com Usain Bolt, a imagem de um campeão que atravessa fronteiras esportivas e traduz, em poucos gestos, a grandiosidade da ocasião. Mas as memórias de Bihler são menos sobre celebridades e mais sobre a teia humana que os Jogos costuram: voluntários que reencontra a cada edição, fotógrafos com quem trabalha há décadas, delegações que atravessam continentes e deixam rastros de amizade.
Em Anterselva — onde concentrou seu trabalho em Milano-Cortina — a rotina de Hubert é metódica: acorda cedo, toma café e segue de ônibus até o venue para checar o campeggio. Depois, outro trajeto para se integrar à equipe, briefing e a preparação para um dia cujo pico sucede os treinos matinais e as competições que costumam ocorrer no fim da tarde.
Dos desafios, ele destaca a dimensão humana: “A quantidade de gente”. Na valle de Anterselva, somando público, voluntários e pessoal de organização, chegam a ser cerca de 20.000 pessoas — um microcosmo logístico e social que exige coordenação e uma capacidade de conviver com o imprevisível. Mesmo assim, o juízo é elogioso: “Fantastica”, resume, ao apontar a qualidade da organização e o clima entre as equipes.
Sobre a hospitalidade local, o comentário é antropológico e gastronômico: depois de tantos torneios, já se habituou a reconhecer o impacto simbólico de uma cozinha bem-feita. Em Anterselva, a culinária tirolesa ganhou sua aprovação: “Aqui se come muito bem”, comenta, lembrando que o alimento também é elo entre culturas durante os Jogos.
Grande parte de sua atividade — cerca de 90% — concentra-se no relacionamento com fotógrafos: gerenciá-los e assisti-los no field of play. Esse trabalho reforça uma ideia que atravessa suas entrevistas: o valor das redes humanas que os eventos culturais e esportivos criam. “Encontrar fotógrafos que conheço há 10, 15 ou 20 anos é sempre maravilhoso”, diz. Para Hubert, o ponto alto não é apenas a competição, mas a continuidade das relações e a capacidade do esporte de produzir novos laços.
Ao completar oito décadas, Hubert Bihler personifica uma face menos celebrada dos Jogos: a do voluntário que se mantém produtivo, conectado e essencial. Seu humor diante do apelido de “nonno” é, ao mesmo tempo, resistência e testemunho — uma declaração simples de que, para alguns, o lugar de pertencimento segue sendo o campo de trabalho, onde se escreve, diariamente, a memória coletiva do esporte.





















