Save the Children participou do trajeto da tocha olímpica rumo à cerimônia de abertura dos Jogos de Milano‑Cortina 2026 com uma porta‑voz que sintetiza valores tão celebrados quanto raramente visíveis nos grandes eventos: Hibatallah Najid, conhecida como Hiba. Chegada à Itália aos nove anos, Hiba cresceu no Punto Luce Giambellino, em Milão, espaço gerido pela organização que há um século trabalha para proteger crianças em risco e promover oportunidades.
No ambiente do Punto Luce, segundo a própria ONG, Hiba encontrou acolhimento e ferramentas para transformar vulnerabilidades em determinação. Ali descobriu também uma paixão que, embora pareça simples, é poderosa em sua capacidade integradora: o futebol. Levar a tocha nas mãos, diz ela, é mais do que um gesto simbólico — é a confirmação pública de uma trajetória de inclusão.
“Portar a tocha olímpica significa dar voz a essa transformação, de quem pensava não ter chances a quem sonha alto e incentiva a superar obstáculos, segundo os valores do esporte”, afirmou Hiba. “Para mim é uma grande emoção estar aqui e mostrar que, se alguém confia em você, você também pode aprender a acreditar em si mesma e a tornar‑se luz para os outros.”
O episódio merece ser lido em duas frentes. A primeira, literal: uma jovem que viveu o deslocamento e encontrou na rede de apoio local um lugar para crescer agora participa do rito inaugural da festa olímpica. A segunda, mais analítica, é a que interessa ao leitor que busca entender esporte como fenômeno social — e não apenas espetáculo: a escolha de uma tedofora ligada a projetos de inclusão envia uma mensagem institucional sobre o papel dos Jogos como palco de integração e de afirmação de direitos.
Como repórter e analista que observa o esporte à luz de contextos históricos e culturais, vejo em gestos assim uma leitura do que a Itália quer projetar neste momento: uma nação que afirma valores de resiliência, inclusão e paz enquanto recebe os olhos do mundo. Não se trata de romantizar dificuldades, mas de reconhecer que infraestruturas sociais — centros comunitários, programas educativos, projetos esportivos de base — são cruciais para transformar trajetórias individuais em bens coletivos.
A participação de Hiba no revezamento confirma também a função pedagógica do esporte: no campo e fora dele, aprender regras, disciplina e cooperação tem reflexos diretos sobre a capacidade de inserção social. Quando uma jovem que aprendeu a jogar futebol em um centro comunitário carrega a tocha, o gesto ressoa além do brilho momentâneo; ele reafirma que os Jogos podem ser janela para histórias que articulam memória, mobilidade e esperança.
Em suma, a presença de Hiba no trajeto da tocha não é apenas simbólica — é estratégica. É a imagem de uma política de esporte que olha para baixo, construindo pontes, e não apenas para os pódios. E, na noite da cerimônia de abertura, essa luz pessoal se juntará àquelas das olimpíadas para lembrar que a chama mais duradoura é a que acende possibilidades.





















