Vladyslav Heraskevych, o esquiador de skeleton ucraniano e porta‑bandeira de sua delegação em Milão‑Cortina 2026, foi oficialmente impedido de utilizar o capacete com os rostos de atletas e treinadores ucranianos mortos desde o início da invasão russa, em 2022. A decisão — comunicada pelo Comitê Olímpico Internacional — resultou na proibição do capacete durante sessões oficiais de treino e nas competições, e levou o atleta a anunciar que recorrerá ao TAS (Tribunal Arbitral do Esporte).
O capacete de Heraskevych traz representadas mais de vinte vítimas do conflito. O jovem de 27 anos declarou repetidas vezes que se trata de uma homenagem, não de uma manifestação política, e que o objeto não infringe a chamada Regra 50 da Carta Olímpica de modo diferente de outros sinais adotados por competidores. Em resposta, o Comitê Olímpico Internacional ofereceu a alternativa de usar uma faixa preta no braço — proposta rejeitada pelo atleta.
Heraskevych confirmou que utilizou o capacete nas sessões de treino dos dias 8, 9 e 10 de fevereiro. Segundo relatos, a proibição foi comunicada após essas primeiras atividades na pista de Cortina. Em manifestações públicas, o atleta disse considerar a decisão “coração partido” e falou em sensação de traição por parte da organização olímpica, avaliando ainda que outros competidores já expressaram posições semelhantes sem sofrer as mesmas sanções.
Ao justificar a restrição, o CIO invocou a Regra 50, que veda “manifestações” ou “propaganda” nos locais de competição e pódio. O Comitê reafirmou também que os atletas têm liberdade de expressão nas áreas de mídia e nas redes sociais, desde que não a levem para o campo de prova ou momentos oficiais de competição.
Heraskevych anunciou a intenção de levar o caso ao TAS, afirmando que é necessário lutar pelos direitos dos atletas. “Acreditamos que devemos continuar a lutar pelos nossos direitos”, declarou ele, anunciando a preparação de um recurso. O incidente ganhou visibilidade quando o esportista publicou um vídeo informando que um representante do CIO havia vetado o uso do capacete nas sessões oficiais.
Do ponto de vista histórico e cultural, a controvérsia toca três vetores centrais do esporte contemporâneo: a tensão entre a neutralidade institucional e o caráter público das plataformas olímpicas; a instrumentalização do corpo e do equipamento atlético como suporte simbólico; e a dificuldade em hierarquizar vozes quando há um conflito militar em curso. As Olimpíadas têm, desde seus primórdios modernos, pretendido equilibrar celebração atlética e princípios de neutralidade política, mas a realidade — sobretudo em tempos de guerra — desafia permanentemente esse ideal.
Não se trata apenas de um objeto proibido ou permitido. O capacete projetado por Heraskevych funciona como memória e como exigência de testemunho: lembrança das vítimas, apelo por reconhecimento e recusa a reduzir o sofrimento a um argumento privado. O litígio jurídico que se anuncia no TAS deverá, portanto, testar não só a literalidade da Regra 50, mas também os limites do que as instituições olímpicas consideram tolerável quando há uma assimetria evidente entre o conteúdo de uma expressão e o contexto que a originou.
Enquanto aguarda o desfecho do recurso, Heraskevych segue firme na defesa do gesto e mantém a narrativa de que sua atitude é uma homenagem legítima, não uma provocação política. Para observadores atentos, o episódio reabre o debate sobre o papel do esporte como arena de memória coletiva e sobre a responsabilidade das organizações esportivas diante das emergências humanitárias modernas.





















