Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Em um gesto que mistura ativismo pessoal e visibilidade olímpica, o esquiador britânico-estadunidense Gus Kenworthy publicou uma mensagem contundente durante os dias da cerimônia de abertura de Milano Cortina 2026. Enquanto a festa inaugural acontecia em San Siro, Kenworthy registrou na neve, de forma deliberada e provocadora, as palavras “Fuck ICE” — escritas utilizando urina — e compartilhou o registro em seu perfil no Instagram.
O ato de Kenworthy não foi apenas simbólico. Na legenda da publicação, o atleta incluiu um apelo claro ao seu público: ligar para o número (202) 224-3121 para pressionar senadores a se posicionarem contra o financiamento do ICE (Immigration and Customs Enforcement), agência que ganhou reforço e destaque nas políticas imigratórias vinculadas à administração de Donald Trump. A mensagem visa aproveitar a visibilidade das Olimpíadas de inverno para mobilizar cidadãos e transformar um gesto pessoal em ação política concreta.
Como observador das interseções entre esporte e sociedade, cabe notar que episódios assim não nascem do vazio. A história recente dos Estados Unidos e suas disputas sobre migração e segurança de fronteiras tem encontrado nos atletas vozes que extrapolam o campo competitivo. Mesmo que a forma escolhida por Kenworthy — a escrita na neve com urina — seja chocante para parte do público, a intenção se insere em uma tradição de protestos que usam o corpo e o espaço simbólico para convocar debate.
Há, também, uma dimensão estratégica: ao publicar o gesto durante o clímax midiático da abertura olímpica, Kenworthy amplia o alcance da mensagem e força uma discussão que, de outra forma, poderia permanecer restrita ao circuito político interno americano. A conduta levanta questões sobre os limites da expressão política de atletas em palco internacional e sobre como grandes eventos esportivos se transformam em palcos de disputa por narrativas e políticas públicas.
Do ponto de vista institucional, o episódio projeta impactos variados. Para a organização das Olimpíadas e os atores locais, há a necessidade de nomear e gerir a relação entre atletismo, imagem pública e controvérsia. Para os próprios atletas, o gesto de Kenworthy funciona como evidência de que o status de celebridade esportiva pode servir tanto para promover causas sociais quanto para gerar reações adversas que reverberam além do esporte.
Independentemente de concordâncias ou juízos morais, o caso exemplifica como eventos como Milano Cortina 2026 são simultaneamente celebração esportiva e palco de disputas políticas. A provocação de Gus Kenworthy é, portanto, menos sobre o ato técnico ou chocante em si e mais sobre a tentativa deliberada de transformar atenção em mobilização — um gesto que exige análise cuidadosa sobre seus efeitos simbólicos e práticos.
O número citado na postagem, (202) 224-3121, permanece como ponto focal do apelo de Kenworthy: uma convocação direta ao engajamento cidadão durante as negociações de financiamento do ICE no Senado dos Estados Unidos.






















