Gus Kenworthy, esquiador de freestyle medalhista olímpico, afirmou ter recebido mensagens de ódio e até ameaças de morte após sua manifestação pública contra a agência de imigração dos EUA, ICE, pouco antes de sua quarta descida nos Jogos de Milão-Cortina 2026.
Vencedor da medalha de prata no slopestyle pelos Estados Unidos em 2014, Gus Kenworthy — nascido no condado de Essex, filho de mãe inglesa e pai americano, e que competiu por EUA em Sochi e PyeongChang antes de optar pela Grã-Bretanha em 2019 — tornou-se alvo de reações extremas depois de publicar uma imagem nas redes sociais em que aparece a palavra “f*** ICE”, alegadamente desenhada na neve com um gesto provocador. O gesto foi acompanhado de uma mensagem pedindo que cidadãos americanos pressionassem seus senadores a negar verbas à controversa força de imigração.
“Pessoas me dizendo para me matar, me ameaçando, desejando que eu rompesse um joelho ou o pescoço durante a prova, me insultando… é insano”, relatou o atleta de 34 anos em suas redes sociais, descrevendo o teor de mensagens que se seguiram ao seu protesto. Ainda assim, Kenworthy ressaltou que boa parte das respostas foi de apoio e incentivo; entretanto, uma parcela significativa foi abertamente hostil e violenta.
O episódio não é isolado no ambiente olímpico: alguns atletas, sobretudo do Minnesota, já manifestaram críticas públicas à atuação da ICE ou ostentaram broches com a inscrição “ICE OUT”. Frente a esse cenário, o comitê olímpico britânico afirmou que não pretende adotar medidas disciplinares contra Gus Kenworthy, por se tratar de uma expressão pessoal ocorrida fora do contexto oficial do Team GB. Um porta-voz também lembrou que o Comitê Olímpico Internacional não regula postagens pessoais nas redes sociais, e que os atletas têm espaço para manifestação dentro das diretrizes de expressão durante os Jogos.
Mais do que um incidente de redes, o caso de Gus Kenworthy revela a continuidade de um debate mais amplo: até que ponto a arena esportiva permanece separada da vida política e social? Em um mundo em que atletas são vozes públicas e estádios se tornam palcos de memória e disputa simbólica, a reação ao protesto exemplifica como decisões individuais podem reverberar em frentes diversas — da solidariedade à ameaça.
As respostas agressivas que o esquiador recebeu também colocam em evidência os riscos do ativismo hoje: além da censura e da pressão institucional, há a dimensão do assédio pessoal que pode escalar para a violência. Para observadores culturais e dirigentes esportivos, a situação convoca uma reflexão séria sobre proteção, liberdade de expressão e os limites do engajamento público de atletas que, por sua visibilidade, ocupam papel difuso entre cidadão e figura pública.
Enquanto o debate prossegue, Gus Kenworthy segue competindo em Milão-Cortina, e seu caso ficará como mais um exemplo de como o esporte contemporâneo se entrelaça com demandas sociais e políticas, forçando instituições e público a repensarem protocolos, garantias e responsabilidades.






















