Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
À véspera da cerimônia de abertura dos Jogos Milano‑Cortina 2026, o artista Ghali publicou um desabafo em redes sociais que ilumina tensões maiores do que uma simples escalação artística: trata‑se de decisões simbólicas sobre identidade, representação e controle do palco público. Em uma mensagem dirigida ‘A todos’ e escrita em três línguas, o cantor referiu‑se ao célebre artigo de Pasolini ‘Io so’ para desenhar um quadro de aceitação e exclusão.
No post, Ghali diz compreender os motivos de seu convite, mas também as razões pelas quais não pôde mais cantar o hino nacional e por que a proposta de recitar uma poesia pela paz — que poderia conter múltiplas línguas — acabou sendo esvaziada: ‘Sei que uma língua, a árabe, no último momento foi demais’. A frase, direta em sua simplicidade, evidencia o que muitas vezes permanece subjacente em eventos institucionais de grande visibilidade: a negociação entre gesto artístico e cálculo político.
O episódio ganhou dimensão pública porque a participação do artista já havia sido alvo de críticas da Lega, que, no fim de janeiro, qualificou a presença de Ghali como ‘uma notícia desconcertante’. Fontes do partido afirmaram que os Jogos deveriam projetar uma imagem unívoca e positiva da Itália no mundo e classificaram o cantor com termos duros, acusando‑o de posturas hostis a Israel e de ser um ‘fanático proPal’.
Ghali, por sua vez, adotou um tom de observador crítico: ‘Sei quando uma voz é aceita. Sei quando é corrigida. Sei quando se torna demais. Sei porque querem alguém como eu. Sei também porque não me gostariam’. E completou, em síntese resignada: ‘Sei que um pensamento meu não pode ser expresso. Sei também que o meu silêncio faz barulho. Sei que é tudo um Grande Teatro.’
Há, aqui, duas vertentes que merecem atenção. Por um lado, a disputa concreta sobre linguagem e repertório — o veto à interpretação do hino por parte do convidado e a retirada de versos em árabe de uma peça pela paz. Por outro, a dimensão simbólica: a escolha do que é ‘legítimo’ em uma cerimônia que pretende representar a nação diante do mundo. Esses episódios colocam em cena a natureza não neutra das grandes cerimônias esportivas, onde cada palavra e cada ausência comunica valores e limites.
Historicamente, eventos como os Jogos Olímpicos sempre funcionaram como vitrines nacionais. A decisão sobre repertório artístico deixa claro que a curadoria cultural responde a pressões institucionais e políticas — e que a própria ideia de unidade nacional pode ser, paradoxalmente, construída pela exclusão de vozes percebidas como dissonantes.
Como analista, não me interessa reduzir o caso a uma mera contenda pessoal. Interessa perceber o que essas escolhas dizem sobre a Itália contemporânea: sua vontade de imagem global, seus medos identitários e as decisões que, em nome da neutralidade ou da ordem, acabam por sancionar ausências. O episódio envolvendo Ghali e Milano‑Cortina 2026 é menos sobre um cantor que deixa de entoar um hino e mais sobre as linguagens que se permite ouvir — e aquelas que se prefere calar — em um palco que pretende falar por todos.






















