Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
No Nereo Rocco, uma noite que resumiu as contradições do futebol moderno: paixão local e estruturas que pesam sobre identidades coletivas. Triestina e Cittadella protagonizaram uma partida intensa, repleta de reviravoltas e de decisões arbitragem contestadas, que terminou com a vitória dos visitantes por 3-2 — resultado selado por um cabeceio nos acréscimos, aos 96 minutos.
Aos 13 minutos, Falcinelli abriu o placar para o Cittadella, com um chute angulado que não deu chances a Matosevic. A resposta da Alabarda foi imediata: aos 20 minutos D’Amore cabeceou perto do gol e, aos 23, Rabbi criou um momento de rara qualidade técnica ao girar em um espaço mínimo e emendar um disparo sob a trave — lance anulado após verificação do VAR por impedimento.
O primeiro tempo ainda foi marcado pela saída de Tonetto por problema muscular e por chances desperdiçadas de Ascione e de novo de Falcinelli. No minuto 48 da etapa final, Rabbi quase empatou com um pallonetto que bateu no poste externo, já anunciando uma segunda parte nervosa e carregada de sofrimento para as arquibancadas.
A Triestina, que convive com a pesada sombra da penalização de 23 pontos e ocupa a lanterna, joga com outro objetivo social: encerrar a temporada com dignidade diante da sua torcida. Aos 62 minutos essa dignidade se materializou em gol, quando Ascione cruzou e Faggioli apareceu no cabeceio para igualar, 1-1.
O ânimo, porém, foi curto. Aos 69 minutos, Anastasia acionou sua técnica e acertou um chute colocado sob a trave que devolveu a vantagem ao Cittadella (2-1). A partir daqui a partida se fragmentou: oportunidades, reclamações por pênalti não assinalados — uma delas no minuto 56 entre Ascione e Casolari, outra no 73 quando Bunino acertou o poste e caiu na área — e substituições que buscavam oxigênio para o time de Giuseppe Marino.
Quando parecia que a exaustão e o placar manteriam o Cittadella na frente, o jovem reforço Vertainen entrou e, aos 91 minutos, fez o 2-2 com um chute rasteiro que surpreendeu Saro e trouxe novo fôlego à torcida do Rocco. O jogo, contudo, ainda reservava uma última virada: aos 96, em mais um avanço incisivo, Anastasia serviu Rabbi, que de cabeça garantiu o triunfo visitante por 3-2 — um golpe duro para a comunidade triestina.
Do ponto de vista esportivo, o resultado reforça o bom momento do Cittadella, que chega embalado na disputa por vagas de playoff. Para a Triestina, a derrota é mais que um revés: é o sintoma amplificado de uma temporada em que problemas administrativos e desvantagens institucionais se traduzem em drama cotidiano para jogadores, clube e torcedores.
No fundo, o que se viu no Nereo Rocco não foi apenas uma sequência de lances decisivos, mas um retrato das assimetrias do futebol italiano — times que lutam com recursos e penalizações versus estruturas mais estáveis que aspiram a crescimento. A cabeça erguida a que a Triestina aspira continua sendo um gesto de resistência civil e cultural. Na prática, porém, a conta é de resultados, e hoje ela pesou contra a Alabarda.
Ficha rápida:
- Local: Estádio Nereo Rocco, Trieste
- Placar: Triestina 2-3 Cittadella
- Gols: Falcinelli 13′ (Cittadella); Faggioli 62′ (Triestina); Anastasia 69′ (Cittadella); Vertainen 91′ (Triestina); Rabbi 96′ (Cittadella)
- Acontecimentos: gol anulado de Rabbi aos 23′ após VAR; postes de Rabbi (48′) e Bunino (73′); polêmicas por pênaltis não assinalados.
Como analista, mantenho que partidas assim ultrapassam o resultado: consolidam narrativas. A Triestina segue na condição de equipe que busca dignidade frente a uma punição que a marca; o Cittadella, por sua vez, confirma que eficiência e profundidade de elenco pagam dividendos nos momentos que contam.






















