Por Giulliano Martini — Apuração in loco e cruzamento de fontes: a família Rizzo, atual proprietária da Ternana Calcio, encaminhou nos últimos dias os primeiros dois esposti à Procura de Terni, após levantamento jornalístico do AGI. Os documentos põem sob análise atos praticados por Massimo Ferrero — ex-presidente da Sampdoria e ex-superconsulente do clube — e por Tiziana Pucci, ex-amministradora única da sociedade.
As denúncias iniciais pedem investigação por «infedeltà patrimoniale in concorso» — termo técnico citado nas peças — que, em tradução jurídica acessível, corresponde a suposta infidelidade patrimonial cometida por administradores que causam dano intencional ao patrimônio da empresa para obter vantagem indevida. A conduta prevista na norma italiana prevê pena de reclusão.
Segundo o material entregue ao Ministério Público de Terni, o vínculo entre Pucci e Ferrero é de longa data. Pucci foi secretaria histórica de Ferrero durante seu mandato na Sampdoria e, já em Terni, atuava com funções que a imprensa local chegou a qualificar como de “vicepresidente” ao lado do ex-consulente. As denúncias sustentam que, na breve passagem da dupla pela gestão da Ternana, ocorreram operações que teriam causado prejuízo ao clube e benefício econômico a terceiros.
Em um dos relatos descritos no primeiro documento, consta que, em 9 de dezembro de 2025 — um dia ou dois antes de uma assembleia de sócios na qual estariam previstos atos de revogação de cargos a Pucci e Ferrero — teria sido depositado um instrumento societário que, na prática, bloqueou a dispensa dos referidos e impediu a sequência de substituição administrativa. Fontes consultadas por esta agência informam que para formalizar tal ato foi acionado um notário de Cassino.
Além do episódio procedural, o núcleo das acusações envolve a negociação contratual com Ferrero: em 19 de setembro, a então administradora Pucci teria assegurado a ele um contrato de três anos — quando a família Rizzo considerava adequado, segundo fontes, um vínculo de um ano — com valores classificados pelos denunciantes como fora do orçamento do clube. O acordo mencionado prevê, segundo as peças, um ganho líquido de 360 mil euros por três anos na função de consultor, montante que poderia subir para cerca de 600 mil euros em caso de promoção à Serie B, além de prémios vultosos — 1 milhão de euros líquidos em caso de subida à Serie B e 2 milhões em caso de acesso à Serie A.
Os documentos entregues ao procurador-chefe de Terni, Antonio Laronga, também descrevem uma sequência de operações econômico-financeiras ocorridas entre junho de 2024 e setembro de 2025, período anterior à assunção do controle pelos Rizzo. Entre os pontos sob escrutínio, constam pagamentos e patrocínios cujo destino e justificativa financeira ainda estão sendo verificados pelos investigadores.
A família da patrona Claudia Rizzo — 23 anos, identificada pelos denunciantes como força motriz da iniciativa — está assistida pelo advogado Manlio Morcella. As peças protocolares foram protocolizadas nas últimas horas junto à Procuradoria de Terni, cujo titular, Laronga, tem currículo dedicado ao combate à criminalidade organizada e estudos sobre fenômenos mafiosos, com 25 anos de atuação na área.
O caso agora passa pela avaliação prévia do Ministério Público de Terni, que decidirá sobre abertura de inquérito e medidas cautelares. A reportagem manteve contato com partes envolvidas e com o gabinete do procurador, que, até o fechamento desta edição, não se pronunciou oficialmente sobre o andamento processual. Seguiremos com o acompanhamento e com atualização dos fatos brutos assim que novos documentos ou decisões forem disponibilizados.
Raio-x do cotidiano institucional: trata-se de um episódio em que atos societários, contratos e poderes administrativos estão no centro da investigação. A apuração está em curso; o padrão adotado por esta redação foi o de cruzamento de fontes e verificação documental antes de qualquer afirmação categórica.






















