Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Espresso Italia
A Scafatese vive um paradoxo que diz muito sobre o futebol regional italiano: enquanto coleciona números que a colocam como um caso único no país — a única equipe imbatuta do futebol italiano, da Série A à Série D —, enfrenta rupturas internas que revelam tensões entre ambição, gestão e identidade esportiva.
Os dados são impressionantes e objetivos: desde 18 de maio de 2025, quando perdeu nos playoffs do último campeonato de Série D no estádio Granillo diante da Reggina, a equipe não conhece derrota. Nesta temporada, contabiliza 18 vitórias e 6 empates, somando 60 pontos e mantendo uma vantagem de 11 pontos sobre o segundo colocado, o Trastevere, com ainda dez rodadas por disputar. O ataque marcou 51 gols e a defesa sofreu apenas 15 tentos. Com esse desempenho, a Scafatese Calcio 1922 caminha para reassumir um lugar entre os profissionais.
Por trás do sucesso esportivo há uma trajetória de recuperação e reconstrução. O presidente Felice Romano, empresário conserviero e torcedor declarado, completa o segundo ano à frente do clube. Romano alterou o modus operandi de uma instituição que, após um passado em C2, sofreu um colapso financeiro em 2010 e chegou a cair até a Terceira Categoria. Desde então, a ascensão foi gradual, ancorada em escolhas administrativas mais sólidas e numa relação próxima com a comunidade local.
O apelido dos jogadores, os canarini, remete à cor amarela da camisa e funciona como marca identitária para uma cidade que identifica no futebol um espaço de afirmação coletiva. Ainda assim, essa narrativa de festa e recuperação foi tensionada em dezembro: mesmo com 32 pontos em 14 partidas e a liderança consolidada, Romano decidiu demitir o técnico Gianluca Esposito após uma série de quatro empates, justificando uma preocupação com uma possível estagnação do rendimento.
A decisão não foi pacífica. O team manager e nome de peso — Antonio “Totò” Di Natale —, que havia sido chamado para orientar o projeto esportivo, manifestou contrariedade e optou por deixar o cargo. Di Natale, figura respeitada no futebol italiano pela carreira em Empoli e Udinese, além de suas raízes napolitanas (nascido em Nápoles e criado em Pomigliano d’Arco), limitou-se a declarar seu descontentamento e se afastou do clube.
Na sequência, o comando técnico foi confiado a Giovanni Ferraro, 57 anos, natural de Vico Equense, com experiência em clubes como Catania, Casertana e Giugliano. Técnico com duas conquistas de campeonato de Série D e três promoções à Série C, Ferraro também tem ligação antiga com Scafati: atuou como jogador entre 1989 e 1991, somando 62 partidas e um gol. Sob sua batuta, a equipe retomou a trajetória de vitórias e voltou a apresentar desempenho ofensivo sólido.
O episódio da demissão e da saída de Di Natale expõe dinâmicas frequentes em clubes equilibrados entre tradição e ambição: decisões administrativas tomadas em nome da eficiência podem colidir com expectativas de figuras simbólicas que ajudam a construir o capital cultural do projeto. Em pequenos centros como Scafati, o futebol funciona como termômetro social — e escolhas erradas ou precipitações têm repercussões que vão além do gramado.
Resta agora acompanhar se a liderança da Scafatese se converterá em promoção e, com ela, em teste para a sustentabilidade do modelo adotado por Romano. A transição de volta ao profissionalismo exigirá não apenas ecossistema esportivo mais robusto, mas também coesão entre diretoria, equipe técnica e figuras que representam a memória e a ambição do clube.
Enquanto isso, os canarinis seguem sendo o espelho de uma cidade que sonha com a volta aos palcos maiores do futebol nacional — e que observa, com atenção cética, as escolhas que definem não só o resultado de uma temporada, mas a continuidade de um projeto coletivo.





















