Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Um lance aparentemente simples, e que contém em si camadas de interpretação, voltou a colocar em discussão a relação entre tecnologia, regra e espírito do jogo. Na partida válida pela ida dos playoffs da Champions League, disputada nesta quarta-feira, 18 de fevereiro, em solo norueguês, o gol de Esposito que devolveu o empate ao Inter contra o Bodo/Glimt gerou protestos imediatos e acalorados por parte do time da casa.
Aos 30 minutos, o atacante do Inter aproveitou uma bola solta na área, protegiu-a com o corpo e, no movimento de se girar para finalizar, a bola quicou e tocou sua mão — que, de acordo com as imagens, permanecia colada ao corpo. Em seguida, Esposito concluiu com o pé direito e marcou o 1-1 para o time de Chivu.
O que parece um detalhe técnico revela uma tensão maior: jogadores do Bodo/Glimt reclamaram dizendo que houve toque de mão nos instantes imediatamente anteriores ao arremate, pedindo intervenção do VAR com base no princípio da imediatidade. A interpretação nessa área da lei do jogo costuma ser delicada — mesmo um toque com o braço junto ao corpo tem de ser avaliado quanto à vantagem obtida ou à naturalidade do movimento.
O árbitro Felix Zwayer Siebert iniciou o procedimento de revisão eletrônico; o check, segundo relatos, foi breve. Ao fim, a decisão foi pela manutenção do gol. A validação provocou reações diversas: para uns, a leitura foi estrita e técnica, enquanto para outros a letra fria das regras não contempla adequadamente as nuances de contatos involuntários em áreas congestionadas.
É relevante lembrar que episódios como este não se limitam ao impacto no placar — reverberam no sentimento de justiça dos torcedores, na confiança dos clubes em mecanismos de arbitragem e na narrativa pública sobre o uso do VAR. Ao longo das últimas temporadas, a UEFA e as principais ligas europeias tentam calibrar protocolos que reduzam a subjetividade sem soterrar o jogo sob um excesso de intervenções.
No contexto do confronto entre uma equipe norueguesa com história recente de resistência em casa e um clube italiano que busca reencontrar equilíbrio nas grandes competições, decisões como a de Siebert assumem peso simbólico. Elas dizem respeito a como o futebol europeu decide, hoje, o que é aceitável — e o que é incidental.
Para analistas e torcedores que observam o fenômeno esportivo como expressão sociocultural, o episódio levanta duas questões centrais: até que ponto a tecnologia corrige as imperfeições humanas sem eliminar a fluidez do jogo; e como as federações devem comunicar e justificar decisões que, mesmo corretas tecnicamente, podem parecer injustas no plano simbólico.
O empate em 1-1 deixou a eliminatória aberta, mas a discussão pós-lance tende a acompanhá-la por mais tempo — não apenas pelas imagens do toque, mas pelo significado de um árbitro e de um sistema que, frente a dúvidas rápidas e sobrepostas, optam por manter a letra da regra. A partir daqui, clubes e regradores precisam seguir trabalhando para que a resposta tecnológica também seja percebida como legítima pelos que vivem o futebol como paixão e memória coletiva.






















