Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Em uma noite em que o simbolismo do estádio falou tanto quanto a bola, o Milan arrancou uma vitória suada por 2 a 1 sobre o Pisa, resultado assegurado por uma autêntica perla de Modric nos instantes finais. O triunfo valeu três pontos preciosos para os rossoneri na Serie A, uma resposta de resistência numa fase em que a tabela e a persistência operam quase como protagonistas.
O jogo, disputado em Milão, expôs duas realidades paralelas: a de um clube em busca de manutenção de forma e rotinas para não perder o compasso do líder, e a de um time em crise de sobrevivência e identidade. O Pisa, com sua quarta camisa — um uniforme todo preto em edição limitada —, mostrou-se combativo e, apesar da eventual derrota, não foi meramente figurante.
O técnico do Milan, Allegri, optou por rodar o elenco diante de uma semana densa (com recuperação de jogo contra o Como e confronto com o Parma logo depois). Assim, nomes como Leão, Pulisic e Fulkrug foram preservados; Loftus-Cheek e Nkunku tiveram chance de entrada. Do lado do Pisa, o novo treinador Oscar Hiljemark teve que improvisar: ausentes os goleiros por lesão, a equipe lançou o terceiro guardião, Nicolas — sem minutos oficiais até então — e levou para o banco o jovem Guizzo, ainda não completando 17 anos.
Em campo, os primeiros 30 minutos transcorrem em equilíbrio tenso. Aos 29 minutos, um passe filtrante quase tira o sono dos mandantes: Maignan saiu com precisão e negou Stojlkovic, atuação que dizia muito sobre o caráter do confronto. Dez minutos mais tarde foi o Milan que, na sua primeira ação realmente incisiva, conseguiu abrir o marcador — um exemplo de como em partidas de alto nível a eficácia pontual pode pesar mais do que a superioridade prolongada.
O Pisa, longe de se entregar, respondeu com organização e espírito: a luta pela manutenção exige essas partidas de sacrifício coletivo, e a equipe visitante chegou ao empate, mantendo acesa a esperança de escapar da zona de rebaixamento. Ainda assim, coube a Luka Modric, figura veterana e autor de lances que ultrapassam a mera técnica, entregar a solução individual que desatou o nó no fim da partida. Sua jogada — de rara qualidade — definiu o resultado e lembrou como a experiência e a leitura de jogo podem redesenhar uma partida nos minutos finais.
Mais do que três pontos, a vitória do Milan é um testemunho da complexidade do calendário, da necessidade de gestão de elenco e do peso das figuras experientes em decisões cruciais. Para o Pisa, a derrota reduz as margens de recuperação, mas não apaga a dignidade de uma exibição que, em muitos momentos, perturbou o equilíbrio dos favoritos.
O campeonato segue e com ele as narrativas: clubes que se reinventam, outros que lutam para sobreviver, e jogadores que, como Modric, continuam a escrever capítulos onde a bola vira testemunha de memória coletiva. O futebol, ao fim, permanece esse espelho complexo da sociedade e das cidades que o habitam.






















