Juventus saiu de Milão em fúria depois da derrota por 3-2 para o Inter no San Siro, episódio que reacendeu uma velha queixa bianconera sobre o nível da arbitragem na Serie A. O cartão vermelho a Kalulu, por acumulação de amarelos, serviu de estopim para críticas duras da direção juventina, que chamou o ocorrido de inaceitável e exigiu mudanças estruturais.
No pós-jogo, em declaração aos microfones da Sky, o diretor de estratégia futebolística da Juventus, Giorgio Chiellini, desmontou a defesa da qualidade atual do futebol italiano: “Depois do que aconteceu hoje não se pode falar de futebol, é algo inaceitável, mais um erro contra nós nesta temporada”, afirmou. Para Chiellini, falta um patamar de organização compatível com o espetáculo que o campeonato deveria oferecer: “Não há um nível adequado para uma partida desse tipo, este é o espetáculo que demos ao mundo. O protocolo precisa mudar; quem de direito deve assumir responsabilidades.”
A voz da administração foi igualmente contundente. O diretor-executivo Damien Comolli classificou o lance como um episódio “embaraçoso” e visível a todos: “Desde o início da temporada houve uma soma de erros arbitrais contra nós. É realmente difícil aceitar injustiças como essas. Há grande frustração entre os jogadores e o treinador.” Comolli, no entanto, não deixou de reconhecer a entrega da equipe: “Aos meninos dei os parabéns pela prestação. Difícil, porém, falar de futebol neste momento.”
As críticas da Juventus não se limitam ao lance isolado: inserem-se num padrão de contestação que atravessa meses e que, na leitura do clube, revela fragilidades institucionais. Como analista, é preciso notar que a indignação não é só uma reação emocional; trata-se de uma cobrança por mais segurança jurídica e operacional em momentos decisivos das partidas. O debate coloca em questão protocolos, formação e supervisão de árbitros — elementos estruturais cujo déficit tem custo esportivo e simbólico.
Imagens que viralizaram nas redes sociais mostram o treinador Luciano Spalletti, o dirigente Comolli e o ex-capitão Chiellini visivelmente irritados na entrada do túnel que leva aos vestiários. O registro também traz o momento em que Spalletti parece conter a fúria de Comolli, que chega quase a um confronto frente a frente com o árbitro La Penna e sua equipe. Cenários assim ampliam a percepção pública de crise e transformam decisões técnicas em questões de legitimidade coletiva.
Do ponto de vista histórico e social, episódios como este reverberam para além do resultado esportivo. Clubes com dimensões e histórias como a da Juventus interpretam-se como guardiões de memórias regionais e nacionais; quando se sentem prejudicados, reivindicam não só pontos, mas autoridade moral. A resposta das federações e dos órgãos de arbitragem, portanto, precisa ser técnica e simbólica — medidas transparentes que reduzam ambiguidades e reconstruam confiança.
Enquanto a diretoria bianconera exige mudanças e responsabilizações, resta à liga e às instâncias responsáveis apresentar planos claros: revisão de protocolos, maior clareza nas comunicações e, se necessário, reformas na estrutura de avaliação e acompanhamento de árbitros. Sem isso, a tensão seguirá contaminando narrativas e alimentando descrédito numa liga que tenta se reposicionar na paisagem esportiva europeia.
Data do incidente: 14 de fevereiro de 2026.
Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Espresso Italia. Análise e contextualização do episódio, com olhar sobre estruturas e memória do futebol italiano.





















