Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Espresso Italia
A pesada derrota em Istambul voltou-se mais do que um resultado ruim: expôs fragilidades estruturais que agora obrigam a Juventus e Luciano Spalletti a reverem prioridades e escolhas táticas. No estádio Ali Sami Yen, a equipe recebeu um recado claro sobre suas limitações: nas últimas quatro partidas foram sofridos catorze gols e, diante do Galatasaray, lacunas individuais e coletivas ficaram evidentes.
Spalletti já admitiu a necessidade de mudanças se a meta é manter a ambição de voltar à Champions League via classificação direta e, ao mesmo tempo, tentar a recuperação já no jogo de volta com os turcos. A questão central passa por dois vetores: sistema defensivo e soluções ofensivas no flanco direito.
Do ponto de vista tático, a primeira hipótese é o retorno à defesa a três, esquema empregado no início da gestão do técnico toscano. Essa alteração, porém, representaria um recuo na coerência do projeto de temporada e abriria problemas de posicionamento para atletas que vinham sendo moldados num 4-3-3. Continuar com a defesa a quatro seria sinal de confiança no trabalho feito até aqui, mas exigiria ajustes imediatos para estancar a sangria de gols.
O golpe sofrido em Istambul pode tirar do elenco o zagueiro Bremer por um tempo — e a questão não é só a sua ausência num setor já combalido. No lado esquerdo da defesa há carência de um lateral de alto nível: na terça-feira, Yilmaz deu muito trabalho a Cambiaso, Cabal e Kostic. Com Emil Holm lesionado, as opções ficam limitadas. Em um cenário diferente, com Holm disponível, Spalletti poderia deslocar Kalulu para o miolo e recolocar Kelly à esquerda; sem o sueco, é provável que a equipe recomece com Cambiaso como lateral e Gatti no centro, ocupando o espaço deixado por Bremer.
Uma nota de otimismo: o retorno de Koopmeiners ao jogo oferece uma válvula de contenção e qualidade de passe no meio. O neerlandês pode recuar para o miolo de campo, dando descanso a um entre Thuram e Locatelli, e possibilitando o retorno de Miretti à função de trequartista. Miretti reúne atributos de condução e controle de bola que a Juventus necessita — especialmente por uma equipe que, como ficou claro no segundo tempo em Istambul, sofre quando não tem a posse.
O outro grande problema é ofensivo: o lado direito do ataque. Conceição ainda não convenceu e Zhegrova foi avaliado negativamente pela comissão técnica. A alternativa imediata é deslocar McKennie para esse flanco ou, se for do agrado de Spalletti, testar Boga nesse papel. A indefinição se estende ao comando de área: a rotação entre David e McKennie como referência aponta para uma equipe em busca de identidade tática, mais do que de um goleador definido.
O limite maior é administrativo e temporal: o mercado de transferências está fechado, e as correções deverão ser internas até a janela de verão. Resta a Spalletti — e a uma diretoria que precisa conciliar tradição com pragmatismo — encontrar medidas que contenham o desgaste defensivo e ofereçam variações ofensivas plausíveis. Em futebol moderno, alterações táticas são também declarações sobre o que um clube aceita ser; a palavra de ordem em Turim, depois de Istambul, é coerência com coragem.
Sou Otávio Marchesini. Observo o jogo como representação social: cada mudança de esquema não é só técnica, é também narrativa sobre identidade e futuro de um clube.






















