Inter viveu uma noite de sentimentos opostos: enquanto, em Milão, celebrava indiretamente o tropeço do rival, a verdadeira ferida foi aberta a quase 2.500 km de distância, no gelo da Noruega. É essa dualidade — consolidação doméstica e fragilidade europeia — que desenha hoje o retrato mais interessante do futebol italiano.
No mesmo instante em que o Milan arrancava um empate por 1-1 diante do Como no San Siro, beneficiando a distância na tabela e aproximando ainda mais a equipe de Chivu do sonho do scudetto, os nerazzurri sucumbiam ao ritmo vertiginoso e direto do Bodo. O 3-1 sofrido naquelas latitudes árticas obriga o clube italiano a buscar, no jogo de volta, uma vitória por três gols de diferença para superar a fase de playoff — uma missão que, dadas as circunstâncias, não pode ser tratada como trivial.
No San Siro, a leitura tática da partida entre Milan e Como merece atenção. Allegri manteve sua filosofia; a novidade foi a postura de Fabregas, que optou por um plano ultra-prudente. O Como, mais contido e cirúrgico do que de hábito, recolheu-se com disciplina, explorando os espaços deixados por um adversário que, mesmo dominando a etapa inicial, viu romper-se esquemas defensivos em um lance incomum: o passe de Maignan para Paz que abriu caminhos e certezas.
Faltaram ao Milan peças de referência — Modric ausente, Rabiot suspenso e a figura de Maignan envolvida no erro — e, sobretudo, a frieza necessária para fechar a partida quando teve a chance. O Como também errou ao não transformar-se em máquina de abafa: um contra-ataque cedido permitiu a Leao concluir em rede vazia e selar um empate que deixa mais perguntas do que respostas para a temporada rossonera.
Em contraste, a derrota da Inter no norte europeu é menos uma surpresa do que uma consequência previsível de faltas estruturais: atenção tática e humildade competitiva. O Bodo foi rápido, agressivo e preciso: Fet inaugurou o placar, a Inter respondeu com um poste e com Esposito, mas as deficiências defensivas custaram caro quando Hauge e, três minutos depois, Høgh, convergiram em dois golpes letais para selar o 3-1.
O que essa noite diz sobre o futebol italiano? Dita com franqueza, que ser favorito em um campeonato nacional não é sinônimo de invulnerabilidade em competições onde o adversário impõe ritmos distintos e clima, tática e geografia se somam a qualidade técnica. Para avançar na Champions League, a Inter terá de ser uma equipe diferente: mais atenta, mais humilde e mais pronta para interpretar variações de contexto que, historicamente, afastaram times grandes das fases decisivas.
Como repórter e analista, vejo nesta coincidência de resultados um sinal claro de que o futebol contemporâneo continua a testar estruturas — clubes que consolidam domínio interno mas se expõem quando o palco muda. A Itália, numa encruzilhada de tradição e transformação, depende hoje menos de heróis isolados e mais de coerência institucional: treinadores, elenco e diretoria chamados a transformar lições em respostas concretas nas próximas semanas.
Otávio Marchesini — Espresso Italia
Data da partida analisada: 19 de fevereiro de 2026.





















