Por Otávio Marchesini — Em um lance que resume bem o caráter intricado da arbitragem moderna, o Milan teve um gol anulado na partida contra o Pisa, válida pela 25ª rodada da Serie A, disputada na sexta-feira, 13 de fevereiro. Aos 47 minutos do segundo tempo, Fullkrug fez o passe para Rabiot, que finalizou com precisão por cima do goleiro Nicolas. A bola entrou, mas o árbitro Fabbri decidiu anular o lance por um toque de braço anterior do atacante alemão.
Imagens repetidas mostraram que o momento decisivo ocorreu no domínio do lance: Fullkrug controlou a bola com o braço antes de servir o passe para Rabiot, ação considerada irregular pela equipe de arbitragem. Não houve chamada ao monitor do VAR para revisão on-field; a decisão do árbitro em anular o gol foi mantida, sem intervenção que alterasse o veredito inicial.
O episódio traz à tona duas questões centrais para entender o contexto: a primeira é a natureza das regras sobre toque de braço e controle de bola, e a segunda é o impacto imediato de decisões arbitrais sobre a dinâmica emotiva e tática de um jogo. O toque de braço no domínio de bola costuma ser interpretado não apenas pela intenção, mas pela vantagem clara obtida no lance — e, no caso, a irregularidade foi considerada decisiva porque resultou diretamente no passe que originou a finalização.
Sportivamente, o fato ganha relevo porque Fullkrug é reforço recente do Milan, contratado na janela de janeiro, e sua participação no lance acende dúvidas sobre adaptação e leitura de jogo em momentos de pressão. Para a equipe de Allegri, perder um gol por razões técnicas-arbitrárias modifica a gestão da partida: altera a estratégia imediata, dificulta o controle emocional dos jogadores e reconfigura o roteiro que o time pretendia executar a partir do suposto 2-0.
Do ponto de vista institucional, a situação é emblemática de uma fase em que o confronto entre tecnologia e interpretação humana ainda não alcançou plena estabilidade. O VAR foi concebido para reduzir erros claros e óbvios, porém a ausência de chamada ao monitor em lances como este reforça o caráter subjetivo de determinadas avaliações — e a responsabilidade recai, por inteiro, sobre a equipe de campo.
Não se trata de questionar a decisão por antagonismo clubístico, mas de observar como episódios isolados, como um toque de braço no controle, reverberam além do placar: afetam narrativas de temporada, leituras táticas e a reputação de atletas recém-contratados. O esporte, visto como fenômeno social, capta nesses detalhes as tensões entre tradição (o jogo como disputa física e técnica) e modernidade (a tentativa de micro-regular por meio da tecnologia).
Resta ao Milan reagir em campo e à arbitragem manter a clareza e consistência nas interpretações para que decisões futuras sejam menos objeto de debate público e mais expressão de uma aplicação uniforme das regras.




















