Em coletiva de imprensa na véspera do confronto com a Cremonese, o técnico da Roma, Gian Piero Gasperini, abordou a possibilidade de um eventual retorno de Francesco Totti aos corredores de Trigoria. “Se me perguntam, o Totti é uma grandíssima risorsa, mas não é uma história que eu tenha inventado”, disse o treinador, deixando aberta a porta para uma reaproximação entre o clube e seu ídolo máximo.
Gasperini acrescentou que tem ideias sobre o papel que Totti poderia desempenhar, embora ressalte não ter tratado diretamente do tema com a direção: “Eu teria ideias, mas nunca falei sobre isso; eu o vejo nesse sentido e pode ser uma bela oportunidade”. A declaração ecoa um movimento iniciado, publicamente, por Claudio Ranieri, que em entrevista à Sky Sport mencionou que a família Friedkin estaria avaliando o retorno do ex-capitão: “Sei que os Friedkin estão pensando nisso, espero que Francesco possa ser realmente útil à Roma, também porque ele é parte da Roma”. Ranieri, hoje dirigente do clube, foi a primeira voz interna a trazer o assunto à tona.
Nos meses anteriores, Francesco Totti voltara a refletir sobre seu último ano tumultuado com a camisa giallorossa. Em participação no podcast Supernova, apresentado por Alessandro Cattelan, o ex-capitão revisitou lembranças e arrependimentos ainda não totalmente superados. Totti recordou que, no início daquela temporada, lhe disseram que ele decidiria o momento da aposentadoria; mais à frente, porém, recebeu a informação de que aquele seria seu último derby. O episódio — que mescla promessas quebradas e desalinhamentos institucionais — permanece como cicatriz na memória coletiva do torcedor romanista.
Em tom mais amplo, o próprio Totti comentou sobre a percepção social da idade no futebol italiano: “Aqui na Itália, quando você chega aos 36 ou 37 anos, para muita gente você já não se sustenta mais”; e descreveu um período em que sentia estar jogando contra tudo ao redor, um contexto que o desgastou mais por fatores externos do que por condição física. “Cada vez parecia que eu fazia algo a mais. Talvez fosse a preparação, a equipe ou até a minha qualidade, mas eu sempre virava o resultado”, disse.
Como jornalista e analista que vê no esporte um espelho da sociedade, interpreto a hipótese de retorno de Totti à Roma como um debate sobre memória e institucionalidade. O possível ingresso de uma figura simbólica como Totti na estrutura do clube não é apenas uma questão técnica: é também um gesto de reconciliação com uma identidade afetiva — e um teste sobre a capacidade dos atuais gestores, os Friedkin, de equilibrar modernização e patrimônio cultural. Se houver espaço para um papel efetivo, caberá à direção definir se a função será consultiva, institucional ou de ligação direta com a torcida e a formação de jovens valores.
Em última análise, a notícia transcende o rumor administrativo: fala do que a Roma quer ser, de como ela preserva sua memória e de que forma símbolos como Francesco Totti podem, novamente, ser traduzidos em utilidade concreta para o clube e para a cidade.






















