Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
A Juventus vive um momento que exige leitura além do placar. Quarta derrota nas últimas cinco partidas, a primeira derrota em casa na temporada no seu estádio e uma confiança que se desfaz com notável rapidez: a equipe parece ter perdido a cura que lhe havia sido dada nas semanas anteriores. Spalletti havia recuperado uma identidade e implantado um futebol agradável; hoje, porém, as fissuras táticas e psicológicas são óbvias.
No retrato do conjunto, a defesa transformou-se numa espécie de “banda do buraco”: 15 gols sofridos em cinco partidas revelam colapsos coletivos e individuais. O ataque, por sua vez, tem sido incapaz de oferecer soluções — um sinal de que o problema é estrutural e não apenas circunstancial. Contra o Como, a sensação foi de uma equipe entregue aos seus limites, sem a capacidade de reagir diante das próprias falhas.
É inevitável que treinadores entrem no foco das críticas — antes foram avaliados Thiago Motta e Tudor, e agora o trabalho de Spalletti também será escrutinado. Mas, como sempre na história do futebol moderno, a responsabilidade se estende para além do banco: diretores de futebol e decisões de mercado moldam a capacidade competitiva. Nomes como Giuntoli e Comolli voltam ao centro do debate. Chama atenção o investimento pesado em Openda, adquirido por valor superior a 40 milhões de euros — uma operação que hoje suscita perguntas sobre planejamento e adequação ao projeto técnico.
Enquanto a Juventus se afunda em incertezas, o campeonato revela outros protagonistas com trajetórias opostas. A Inter está em estado de graça: 21 vitórias em 26 partidas, nove triunfos consecutivos fora de casa e seis deslocamentos sem sofrer gols. Números que têm o cheiro de título e que, no plano coletivo, constrastam com o drama bianconero.
Em campo visitante, tornou-se evidente um fenômeno cultural: jogadores como Bastoni têm sido alvo de vaias persistentes. O defensor respondeu com compostura, concentrado nas suas tarefas, mas o episódio aponta para uma hostilidade que pode se repetir e afetar o desempenho fora de Turim.
Outros fatores influenciam o mapa de forças. Partidas contra times como o Lecce são complicadas para rivais que vêm de desgaste europeu — a ausência de peças-chave como Lautaro pesa, porque jogadores como Thuram não reproduzem totalmente o mesmo trabalho entre linhas que desestabiliza defesas adversárias.
A vitória surpreendente do Como não só acentua a crise juventina como reacende a corrida por vagas na Champions. Caso a Atalanta vença o Napoli hoje, o cenário seria de cinco equipes em cinco pontos disputando apenas duas vagas europeias — um campeonato dentro do próprio campeonato.
Mais do que culpas imediatas, o que emerge é a urgência de diagnóstico: a Juventus precisa de decisões estratégicas que recoloquem estrutura, identidade e mercado num alinhamento coerente. Sem isso, a sucessão de derrotas não será um choque pontual, mas o sintoma de um processo que exige intervenção profunda.
22 de fevereiro de 2026




















