Quase sem alarde, o Inter foi reposicionado no departamento dos alimentos congelados — aqueles que se guarda para a próxima oportunidade. A derrota em Aspmyra complica a vida dos nerazzurri na Champions League: para avançar, na volta em Milão será preciso um triunfo por três gols de diferença sobre o surpreendente Bodø/Glimt, a equipe norueguesa que cresce como a sensação desta fase preliminar europeia.
O cenário no Ásmyra Stadion foi extremo: temperatura na casa dos -12°C, gramado sintético de características já clássicas para o futebol escandinavo e uma torcida que alimentou a crença de que o clube, com receitas muito inferiores às gigantes do continente, pode escrever uma história continental rara. Esse contraste — de infraestrutura, orçamento e tradição — é parte da narrativa esportiva contemporânea: o clube pequeno que se organiza e põe em xeque o status quo.
Na prática, a partida teve contornos dolorosos para os visitantes. O empate provisório de Esposito, que aproveitou um cruzamento do lado de Barella e finalizou com frieza para marcar seu sétimo gol na primeira temporada com a camisa nerazzurra, trouxe esperança temporária. Antes disso, o vigoroso Bodø havia aberto o placar explorando a transição rápida, com um passe que desorganizou a defesa: o toque de calcanhar de Høgh desestabilizou Acerbi e permitiu a infiltração de Fet. Bastoni, alvo frequente de vaias, ficou fora de posição; Mkhitaryan, por sua vez, chegou atrasado à cobertura.
O segundo tempo confirmou a impressão de uma equipe italiana desconectada com o clima e a proposta adversária. Em três minutos, dois gols do time norueguês desmoronaram a tentativa de controle tático do técnico Chivu. As escolhas iniciais do treinador — buscar surpreender em vez de recuar diante das rápidas transições nórdicas — não surtiram o efeito esperado. A partida ainda teve o drama físico: Lautaro saiu lesionado, com problema no músculo da panturrilha; no pós-jogo, Chivu confirmou a perda do atacante para a partida de volta.
Houve sinais de reação: Darmian, em sua primeira titularidade da temporada, acertou o poste; Barella participou da construção do gol de Esposito e mostrou disponibilidade. Mas o saldo prático é incômodo — esta foi a quarta derrota do Inter nas nove partidas recentes, número que ressalta a oscilação de uma equipe que ainda perde pontos em casa e vê a perseguição interna ao scudetto afetada (o Milan abriu sete pontos na liderança).
Do ponto de vista tático, o Bodø de Kjetil Knutsen — no comando desde 2018 — confirma que não se trata de um lampejo: alternância entre 4-4-2 compacto e abertura em 4-3-3, com transições verticais e ritmo alto, torna-o um adversário moderno e desconfortável. Para o Inter, a chave agora é conjugar recuperação física, especialmente de Lautaro, decisões de preparação em San Siro e uma atuação que resgate a autoridade europeia dos últimos anos. Perder a vaga na Champions nos playoffs para um clube com fração do faturamento seria retroceder no estatuto continental conquistado pela instituição.
Em suma: o resultado em Noruega não é fatal, mas impõe uma escalada de dificuldade. A narrativa que nasce daqui é dupla — a da resiliência de um pequeno que se expande e a da responsabilidade de um grande que precisa se reinventar diante de desafios que transcendem o placar.






















