Por Otávio Marchesini — Espresso Italia
Um antigo dirigente do Altach, clube que atua tanto nas divisões masculinas quanto femininas da Áustria, vai responder judicialmente na próxima semana por acusações que atravessam a fronteira entre abuso de autoridade e crime sexual. Segundo reportagem do Guardian, o homem foi encontrado em posse de vídeos gravados em segredo no vestiário das jogadoras da equipe principal feminina.
A investigação, conduzida pela polícia criminal do Land de Vorarlberg, trouxe à tona um conjunto de arquivos armazenados no computador do suspeito — material que despertou a suspeita de se tratar de material de pornografia infantil. O caso ficou ainda mais delicado porque, conforme a apuração, cerca de 30 atletas foram afetadas e algumas delas são menores.
As jogadoras não descobriram as gravações por conta própria; foram informadas do ocorrido pela imprensa e por um comunicado oficial do clube, publicado três dias antes do Natal. A polícia chegou ao centro esportivo com um mandado no dia 9 de outubro, mas, segundo o relatório, o indiciado já havia manifestado intenção de se demitir “por motivos pessoais credíveis” e, aparentemente, removido os equipamentos — não foram encontradas câmeras no local quando da busca.
Apesar da ausência física dos aparelhos, o conteúdo das gravações foi considerado suficiente para que o ex-dirigente fosse indiciado por uso impróprio de dispositivos de gravação e por posse de material de pornografia infantil. Em 15 de outubro, o clube proibiu o acesso do indivíduo a todas as suas instalações e acionou uma série de medidas de apoio às atletas.
O Altach organizou noites informativas, ofereceu acompanhamento jurídico e psicológico, mobilizou associações especializadas e chegou a alojar temporariamente as jogadoras em hotéis, diante de relatos de que muitas não se sentiam mais “seguras” nem nas residências fornecidas pelo clube.
Do ponto de vista institucional e cultural, o episódio revela fissuras importantes na governança do esporte. Estádios e centros de treinamento são, além de espaços de trabalho e espetáculo, ambientes de convivência onde estruturas de poder se manifestam em relações de confiança assimétricas. A presença de equipamentos de gravação escondidos em espaços íntimos como o vestiário levanta questões sobre controles internos, rotinas de fiscalização e a responsabilidade de clubes em proteger atletas — especialmente as mais jovens.
A ministra responsável comentou o caso qualificando-o como “assustador” — uma reação que sintetiza o impacto social da notícia, mas que precisa ser acompanhada por medidas concretas: protocolos de proteção, transparência nas investigações e suporte continuado às vítimas. Não está claro, até o momento, que tipo de uso foi feito do material colhido clandestinamente, nem se houve distribuição além do arquivo apreendido.
O caso do Altach expõe a urgência de políticas de player care que transcendam respostas reativas. Trata-se de reparar danos imediatos às vítimas, mas também de recompor uma cultura organizacional capaz de prevenir abusos e de devolver ao esporte seu papel como instância de formação social e de integridade.
Enquanto o processo segue sua marcha legal, resta às autoridades e aos clubes a tarefa de transformar choque em aprendizado institucional — um passo necessário para que vestiários deixem de ser territórios vulneráveis e voltem a ser, acima de tudo, espaços de trabalho e dignidade para atletas de todas as idades.






















