Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Espresso Italia
Uma sentença coletiva marcou, nesta fase do processo, a resposta judicial aos graves incidentes ocorridos ao término de Brescia-Cosenza, em 1º de junho de 2023. Trinta e sete torcedores — identificados como ultras — receberam, no total, 33 anos de prisão (396 meses) pela participação nos confrontos no entorno do estádio Rigamonti.
Os fatos, que ganharam contornos simbólicos porque a partida havia selado em campo o que parecia ser a retrocesso do Brescia para a Série C — episódio que foi posteriormente evitado por decisão administrativa — resultaram em acusações que abrangem resistência agravada a autoridade pública, danos ao patrimônio e lesões a agentes envolvidos no controle da ordem pública.
Os 37 réus optaram pelo rito abreviado, procedimento que prevê julgamento mais célere e consequente definição antecipada da pena. As investigações, conduzidas após os incidentes, identificaram 96 pessoas envolvidas nos tumultos; a sentença desta etapa diz respeito a 37 delas, cujas posições foram hoje definidas pela Justiça.
É preciso olhar além do número bruto de meses de reclusão. O episódio no Rigamonti não é isolado: integra uma longa sequência de confrontos entre grupos organizados de torcedores e forças de segurança que, na Itália, atravessam décadas de história do futebol. A resposta penal procura não só punir atos de violência, mas também sinalizar limites para práticas que transformam esferas públicas — ruas, estádios, praças — em zonas de conflito.
Do ponto de vista institucional, decisões como esta alimentam debates complexos. Como compatibilizar a liberdade de manifestação de identidade e pertencimento — o que os ultras muitas vezes invocam como elemento da cultura torcedora — com a obrigação do Estado de proteger a integridade física de cidadãos e agentes e a preservação do patrimônio coletivo? A Justiça, com penas acumuladas que somam 396 meses, optou por uma resposta punitiva expressiva.
Para o clube e para a cidade, os desdobramentos têm efeitos práticos e simbólicos. Sanções penais sobre associados e simpatizantes repercutem na imagem institucional, influenciam negociações com torcidas organizadas e colocam pressão sobre políticas de segurança em dias de jogo. Se a retrocessão em campo foi depois atenuada por vias administrativas, a memória dos incidentes e a dimensão das condenações permanecem como fator a ser gerido tanto por autoridades esportivas quanto civis.
O caso segue a linha de transformações em curso: estádios que se modernizam, legislação que se endurece, e um vibrante, por vezes conflituoso, movimento de torcedores que insiste em ser protagonista — para o bem e para o mal — na narrativa do futebol italiano. A sentença define culpabilidades, mas não encerra a discussão sobre prevenção, integração social e o papel das instituições no controle da violência arena-cidade.






















