Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — Em uma manhã que ficará na memória do esporte italiano, Francesca Lollobrigida conquistou o primeiro ouro da Itália nos Jogos Olímpicos de Milano Cortina 2026, vencendo os 3.000 metros da patinação de velocidade em pista longa. É, também, o primeiro ouro feminino italiano na história do pattinaggio veloce em Jogos Olímpicos.
A vitória de Francesca Lollobrigida tem contornos que ultrapassam o resultado cronometrado: aos 35 anos, em seu aniversário e após a experiência da maternidade, ela fez uma prova de controle e coragem, capaz de sintetizar décadas de esforço de uma disciplina que, no país, vive em condições estruturais adversas.
Em entrevista após a prova, Lollobrigida não deixou de lembrar a dificuldade rotineira dos patinadores italianos: “Ser uma pattinatrice, na Itália, é duríssimo: não temos uma pista, não temos uma casa real para a nossa disciplina”. Hoje, o único oval nacional em funcionamento está em Collalbo, no ‘Sonnenplateau’ do Alto Adige — enquanto o oval de Miola di Piné, que deveria ter sido parte da infraestrutura dos Jogos, permaneceu fora do planejamento e está em reforma.
O triunfo foi tecido com regularidade: a atleta da Aeronautica Militare correu com voltas consistentes — entre 30,44 e 30,79 segundos dos 1.000 aos 2.200 metros — e soltou nos dois últimos giros, mesmo registrando cronôs ligeiramente acima de 31 segundos nas passagens finais. Essa leitura técnica confirma uma prova construída com inteligência tática e potência física, traduzida em uma prestação que o público definiu como “monstruosa”.
Além do significado esportivo, há um valor social na vitória. Lollobrigida entrou para o panteão do esporte italiano não apenas como atleta, mas como mãe — Tommaso, seu filho, nasceu em maio de 2023 — e como exemplo de conciliação entre carreira e maternidade. “Queria mostrar que é possível ser mãe e atleta de altíssimo nível”, disse ela, lembrando que o filho e sua família celebraram imediatamente o ouro.
Curiosidades pessoais também ecoaram: a campeã, natural dos Castelli Romani, revelou ser pronipote da atriz Gina Lollobrigida — vínculo que só se tornou público depois das Olimpíadas de Pequim 2022 — e comentou, com leveza, que espera ter agora um papel de maior representação para o pattinaggio além do mundo do entretenimento.
Há, contudo, uma leitura mais ampla que fica após a festa do pódio. O ouro de Francesca Lollobrigida expõe com clareza as contradições do esporte italiano: talento que brota apesar da escassez de estruturas; visibilidade que surge principalmente em anos olímpicos; e a urgência de um investimento contínuo em instalações e formação. Se o triunfo em Milano Cortina 2026 tem o sabor da consagração individual, também é um alerta para que as instituições não tratem a patinação de velocidade como exceção, mas como parte de uma política desportiva estratégica.
Na conferência de imprensa, ainda emocionada, Lollobrigida recordou que chegou a ser indicada como porta-bandeira do Team Italia, opção que preferiu declinar porque o dia coincidia com sua prova — o mesmo dia em que completou 35 anos. Ao recusar, escolheu o gelo, e o gelo retribuiu com o ouro.
Mais do que uma medalha, a vitória de Francesca Lollobrigida é um símbolo: da resistência de um esporte periférico, do potencial das mulheres-atletas italianas e da complexa relação entre vida pessoal e carreira de alto rendimento. Resta agora ao movimento esportivo italiano transformar esse momento em legado.





















