Em uma tarde solar na pista Olympia delle Tofane, em Cortina d’Ampezzo, a experiência venceu a incerteza: Federica Brignone protagonizou duas descidas precisas e conquistou o ouro na prova de slalom gigante dos Jogos de Milano Cortina 2026, adicionando seu segundo ouro olímpico ao já obtido no supergigante.
Aos 35 anos, a valdotaina de La Salle — maresciallo dell’Arma dei Carabinieri e guiada pelo irmão e treinador Davide — completou as duas mãos em 2’13″50. Brignone liderou desde a primeira descida, quando cravou 1’03″23, e na segunda manche manteve a compostura que é sua marca: saiu do cancelletto com agressividade controlada, traçando linhas limpas e suficientes para distanciar-se concorrentes de alto calibre.
O pódio ficou dividido a 62 centésimos da italiana, com a sueca Sara Hector e a norueguesa Thea Louise Stjernesund dividindo as posições de prata e bronze. Perto da medalha, a italiana Lara Della Mea terminou em quarto lugar, a apenas cinco centésimos do bronze, paga por uma primeira descida abaixo do esperado. A austríaca Julia Scheib fechou o top 5, a 69 centésimos da campeã.
Nas palavras de Brignone, após a primeira manche, havia humildade analítica: “Fiz uma manche correta, a toda, e me saiu bem. A neve é fácil, o traçado não é especial; trata-se de ir reto. Procurei atacar, ser limpa e inteligente nas mudanças de terreno.” E, após a vitória final, ainda comovida: “Estou sem palavras. Hoje encarei como uma prova de esqui, vivi a corrida com calma e concentração.”
O feito de Brignone não é apenas esportivo: é a narrativa de recuperação e persistência. Há pouco mais de 300 dias, a atleta sofreu uma lesão grave na perna que ameaçou sua carreira. Retornar ao nível olímpico e não só competir, mas dominar duas provas distintas — supergigante e gigante — coloca sua conquista no terreno das histórias que ultrapassam medalhas e entram na memória coletiva do esporte italiano.
Do ponto de vista técnico, a pista de Olympia delle Tofane não exigiu linhas revolucionárias, porém penalizou erros mínimos. A prova mostrou a virtude de Brignone: leitura de percurso e execução metódica, uma combinação que, em percursos menos punitivos, se traduz em vantagem. Atletas jovens e promessas — como Lara Colturi, que compete sob bandeira de outra federação — também estiveram entre as protagonistas, sinalizando a transição geracional que atravessa o esqui alpino europeu.
Essa vitória acrescenta um capítulo relevante à carreira de Brignone e ao legado do esqui italiano. Em tempos nos quais a alta performance convive com riscos e gestões profissionais complexas, o ouro no gigante reafirma que o trabalho técnico, a gestão da recuperação e uma inteligência competitiva continuam sendo pilares para a excelência.
Para além do pódio, resta a leitura cultural: atletas como Brignone tornam-se símbolos transitórios de uma identidade esportiva que combina tradição regional — as cadeias alpinas do Vale D’Aosta — e instituições nacionais, como os Carabinieri, que historicamente apoiam carreiras desportivas na Itália. É nessa interseção que se decantam notações mais profundas sobre o significado de vencer em casa, sob a luz fria e clara de Cortina.
Federica Brignone volta às pistas com um duplo ouro que é, simultaneamente, resultado e história — a de uma atleta que transformou adversidade em argumento para a glória.






















