Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
O episódio ocorrido em Juventus–Inter na 25ª rodada da Serie A entrou na pauta internacional por uma razão que ultrapassa o resultado: a interpretação de um lance e os limites institucionais que envolvem o uso do VAR. Aos 42 minutos do primeiro tempo, Pierre Kalulu, já advertido com cartão amarelo, entrou em disputa com Alessandro Bastoni após a recuperação de bola do zagueiro nerazzurro. As imagens deixam clara a ausência de um contato decisivo: Kalulu não investe em carga sobre o adversário, enquanto Bastoni adota uma queda ostensiva, que configura a clássica simulação.
O árbitro La Penna, convencido pela cena, mostrou o segundo amarelo e expulsou o jogador da Juventus. A consequência imediata foi a redução da equipe a dez componentes ainda no primeiro tempo, com impacto tático e emocional num jogo que seria vencido pelo Inter por 3 a 2. As imagens, porém, também suscitaram um debate técnico e ético: por que o VAR não reviu o lance?
A resposta está no protocolo vigente. O sistema de revisão pode intervir em decisões que culminem em cartões vermelhos diretos quando há erro claro e óbvio, mas não contempla a reavaliação de um segundo cartão amarelo convertido em expulsão. Essa lacuna regulatória transformou um incidente local num conflito simbólico entre a lógica do jogo e as expectativas de justiça imediata que a tecnologia prometeu resolver.
Não surpreende, portanto, que o episódio tenha sido repercutido pela imprensa estrangeira. O diário francês L’Equipe ironizou o fato ao comparar Bastoni a um atleta de inverno: “Pierre Kalulu recebeu o segundo cartão amarelo dez minutos após o primeiro, pouco antes do intervalo, por roçar o braço de Alessandro Bastoni, medalha de ouro de voo planado”, escreveu o jornal, usando humor para evidenciar a teatralidade do lance. Já o Daily Mail, do Reino Unido, não poupou críticas ao apito: “Cartão vermelho estranho! O árbitro expulsa erroneamente Kalulu em Juventus-Inter. Um erro arbitrado evidente!”
Como analista, interessa-me menos a condenação moral do indivíduo e mais o que o episódio revela sobre instituições esportivas e memória coletiva. A simulação é tão antiga quanto o próprio jogo, mas a introdução do VAR criou uma expectativa — legítima — de correção sistemática. Quando o protocolo não acompanha as situações que a tecnologia consegue evidenciar, gera-se uma dissonância que alimenta desconfianças e retóricas contraproducentes: clubes e torcedores reivindicam justiça instantânea; reguladores lembram que as regras definem a alçada de intervenção.
O lance entre Kalulu e Bastoni será lembrado não apenas pelo seu efeito imediato no placar, mas como exemplo didático da tensão entre narrativa e regra, espetáculo e arbitragem. Em última instância, diz respeito à capacidade das federações de adaptar mecanismos tecnológicos a uma prática que permanece, por natureza, humana e sujeita a ambiguidades.






















